Morro do Moreno: Desde 1535
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Entrevista com Fernando Oliveira, 04/11/2005 - Por Mônica Boiteux

Fernando de Oliveira, carnaval de 1974

O Sr. Fernando de Oliveira, atual chefe da Biblioteca Municipal de Vila Velha (Titanic), foi Secretário de Cultura em Vila Velha e inseriu a Festa de Penha no calendário de eventos nacionais junto è EMBRATUR. Atualmente com 72 anos, é escritor, poeta, músico, orador e nos concedeu a entrevista a seguir.

Site: O sr. é de Vila Velha mesmo?
Fernando: Sou de Viçosa, Minas Gerais. Meu nome é Fernando Antônio de Oliveira. Vim por uma contingência assim: Papai foi pai de 10 filhos. Mamãe morreu muito nova e me deixou com 7 anos. Papai casou-se novamente, ele era muito jovem e foi pai de mais 8. Família mineira antiga, sabe como é, né?

Fui criado pela madrasta, e não sei se é uma constante, mas a verdade é que madrasta raramente se dá bem com os enteados. Então ela puxava para os filhos dela. Deixava a gente em segundo plano.

Um irmão dos 10 filhos de mamãe, (estão todos vivos, este com 85 anos), ele já morava aqui no ES e me chamou pra cá. Eu vim em 1948, com 14 anos. Daqui ele me mandou para o Rio de Janeiro. Por incrível que pareça: saí da terra da maior escola de agricultura, hoje é Universidade, na época era uma escola superior de agricultura. Saí de Viçosa para fazer agricultura no Rio de Janeiro. E voltei. Quando eu volto em 1952, sou imediatamente convocado para servir o Exército Brasileiro. Assim eu vim aqui para o 38º BI e no dia seguinte me mandaram com outros colegas de volta para o Rio de Janeiro. Foi uma experiência muito gratificante porque eu fui servir no Batalhão de Guarda Presidencial, na época de Getúlio Vargas.

Site: Então assim o sr. começou a conviver com a política.
Fernando: Exatamente. Eu já tinha essa veia de querer estar perto de políticos. Eu então tirava guarda no Palácio do Catete, que era o Palácio Presidencial e aproveitava para ficar conversando, agradava um, agradava outro para ficar ao lado daqueles antigos, Oswaldo Aranha, Negrão de Lima, que foi Governador da antiga Guanabara, hoje, Rio de Janeiro.

Eu vi nascer em mim o gigante que estava morto, que nunca tinha existido na verdade, mas que tinha uma raiz interna dentro de mim, eu comecei a perguntar as coisas. Teve um também, Tancredo Neves. Assim despertou em mim aquela vontade de participar do mundo da política.

Servi o exército de guarda, mas não servi só lá não. Eu servi também no Ministério da Guerra, no Conselho de Segurança Nacional, no Arsenal de Guerra, na CRIFA. Crifa é um lugar onde ficavam os incapazes: Comissão de Readaptação dos Incapazes das Forças Armadas.

Site: Onde era a CRIFA?
Fernando: Em Lins do Vasconcelos, no Rio de Janeiro. Eu até gostava muito de tirar guarda lá porque a comida era boa e no quartel não era, era sopapo.

Venceu o meu tempo, que modéstia à parte eu tirei sem nenhuma mancha. Nós tirávamos guarda 24 horas por 48 horas de descanso, mas nas 24 horas que eu tirava guarda, era dureza que a gente pegava, ia dormir à meia noite e às 4 da manhã já estava tirando guarda outra vez.

Site: O Sr. ficou quanto tempo?
Fernando: Fiquei só 1 ano. Fiz curso de Cabo, passei, mas não recebi a divisa por uma arte que eu fiz... No Exército tem que usar o cabelo bem baixo, e o meu estava um pouquinho comprido, eu fui fugir e tal, e me deram esse castigo.

Site: O Sr. tinha quantos anos?
Fernando: 18 para 19. O tempo passou e eu vim para o ES com o curso médio em agricultura. Não tenho curso superior, sou autodidata, não estudei para saber as coisas que eu sei. Tenho a base, o grupo escolar, o ginásio, científico, mas curso superior, não tenho. Mas modéstia à parte esse dom é coisa que Deus dá pra gente. Graças a Deus, eu sei entrar e sei sair. Eu sou convidado para falar em solenidades. Sou poeta, escritor, orador, faço jornal. E faço brincando.

Site: O sr. é muito ligado à família Mauro?
Fernando: Sou. Há 34 anos. Nosso atual prefeito Max Filho, quando tinha 3 anos já dizia: O que você quer ser quando crescer? Ele respondia: "Qué xê Pefeto!" O tempo passou e eu vim para o ES assumir a Secretaria de Agricultura no departamento chamado Fomento Agrícola. Lá eu comecei como chefe da então Estação Experimental de Fruticultura em Santa Maria de Jetibá. Na época que Santa Maria era só uma rua, uma vala passava na rua, uma valeta. Santa Maria não era nada. Isso foi em 1953, 1954. Eu me casei em 1955, fiz agora 50 anos de casado. O tempo foi passando, eu fui ser residente agrícola em Anchieta, onde nasceu meu filho mais velho, que é engenheiro. Todos têm curso superior, menos eu, mas isso aí é irrelevante. Pra mim, só faz falta num ponto: eu se soubesse da vida o que sei hoje, eu teria feito, mesmo sem querer fazer, porque eu nunca quis. Mas o canudo propicia rendimentos melhores, só por isso.

Site: O sr. possui escritos sobre a árvore?
Fernando: Eu sempre gostei de árvore, tenho uma adoração, uma coisa fora do comum. Tanto é que em 1959, quando eu vim para Vila Velha, vim mexer com negócio de árvore. Meu primeiro trabalho em Vila Velha foi a arborização da Praia da Costa.

Comecei a pegar gosto pela árvore. Eu fiz a arborização. Isso aí era para estar tudo bonitinho, mas o bicho homem, o maior inimigo da árvore chama-se bicho homem, não deixou vingar tudo. Algumas coisas vingaram, na Sereia, por ali.

Site: Que árvores eram essas?
Fernando: Casuarina, castanheiras, etc... Depois a própria prefeitura se incumbiu de acabar com o resto das árvores.

Site: Quem era o prefeito na época?
Fernando: Era Tuffy Nader. Então depois, fui chamado para fazer o jardim da EAMES, pois Juscelino vinha no ano seguinte, 1960, inaugurar a Escola. Fui para lá e fiz aquele jardim. Mas eles, não sei porque, são tão cuidadosos, mas não vejo um jardim bonito... Não é tão bonito quanto devia ser.

Site: E o sr. ficou até quando trabalhando em Vila Velha?
Fernando: Fiquei até 1962 em Vila Velha, quando um cunhado meu que morava no Rio disse: Fernando, corre aqui que estão abrindo vagas no Ministério da Saúde para a Campanha da Malária. Como eles estão precisando muito, você que tem jeito pra coisa, deve ir lá.

E eu fui e passei mesmo. Entrei em 1962 no Ministério da Saúde, em março. No fim de março, eu já era Encarregado da Seção de Orçamento e Contabilidade da Campanha. Em janeiro do ano seguinte eu já era Administrador na Guanabara antiga (atual Rio de Janeiro).

Daí eu passei a ser Inspetor Regional Administrativo em Minas Gerais. Eu tinha até um avião por minha conta. Eu sempre fui um medroso de avião e o avião uma vez quase caiu comigo umas 3 ou 4 vezes. Teve uma vez que só não caiu porque Deus não quis mesmo. Ele caiu uma vez numa nuvem chamada cumulus nimbus. Essa nuvem chicoteia. O aviãozinho de 4 passageiros ficou cai não cai, foi uma experiência terrível.

Site: E como o sr. foi ser Secretário de Turismo em Vila Velha?
Fernando: Em 1970 é que realmente começou minha vida em Vila Velha. Fui morar no Planalto, aqui em Vila Velha. Me encomendaram um hino para o grupo escolar de lá, que era assim:

“Salve Dante Michelini
Deste grupo tu é o pai
Nós, os pequeninos
Lhe pedimos
Por nós olhai.”

Um senhorzinho gordinho, que fumava muito, novo, 2 anos menos que eu, disse: Vem cá, você que fez essa música? Você quer fazer uma música para mim? Era Max pai.

Eu sou candidato a prefeito, você quer fazer uma música pra mim? E eu fiz 4 músicas para ele.

Coincidiu de um amigo nosso, ex-funcionário da Vale, cru, sem estudo nenhum, era muito Max, todo Max. Um dia chegou pra mim e disse (vou repetir o palavreado dele):

Foi bom encontrar você, o negócio é o seguinte: Dr. Maqui sabe, Dr. Fernando sabe, eu sou Maqui até a alma, mas a verdade é assim: se eu vô pro Ibi, eu ovo falar no Maqui. Se eu vô pra Paul, eu ovo falar em Maqui. Se eu vô pra Barra do Jucu, eu ovo pra lá, eu ovo pra cá.

Tomei uma cervejinha, uma cachacinha, e montei uma rede em duas árvores que tinham perto de um córrego. E eu tô lá dormindo, chegava a roncar. Lá pelas 6 da tarde eu fui acordar sabe com o que, doutor? Com a saparia gritando: Maqui, maqui, maqui.

O poeta não é capaz de saber a potencialidade dele. Eu olho uns trabalhos, e fico duvidando será que foi eu mesmo que fiz isso, será que foi? Aí ensinei ao povo:

É Max pra lá e pra cá
É Max em todo lugar,
Em toda parte que ando
Em Max só ouço falar (repete). 
Para eu descansar
Procurei um lugar longe da cidade,
Lá na roça to sossegado
Numa rede deitado de papo pro ar,
Acordei no fim do dia
Com uma saparia
A cantarolar, Max, Max, Max!

Eram 5 candidatos com Max. O que Max teve de votação, os cinco juntos não chegaram a metade do que ele fez, os cinco juntos. Então Max pediu mais 3 músicas. Ele pediu uma musica para as crianças cantarem, então eu fiz:

O papai falou
A mamãe também
Pra votar no Max
Para o nosso bem,
No dia de votar
No quadrinho do segundo lugar,
Eu vou botar um xis
O Max vai eleito e
O papai fica feliz.

E as crianças cantavam. A música foi um sucesso. Repetiu quando ele foi governador e foi repetida pro filho também.

Site: Então dessa forma, o sr. começou a despontar na política de Vila Velha?
Fernando: Sim. Fui colaborar com Max na parte ecológica, bolei a Sociedade Amigos da Árvore, SOAMAR (Sociedade Amigos da Árvore). Hoje, a Marinha na Capitania dos Portos tem algo chamado SOAMAR, mas foi depois da gente. A nossa SOAMAR foi antes, em 1971, em outubro de 1971 se eu não me engano. Através da Sociedade Amigos da Árvore nós plantamos tantas árvores, eu costumo dizer que árvore sem fim.

Site: E A SOCIEDADE existe ainda?
Fernando: Ela nunca existiu oficialmente. Ela foi de fato e não de direito.

Site: Quem fazia parte?
Fernando: Eu, Max, o sócio nº 1 que é o sr. Vargas.

Site: O que vocês faziam?
Fernando: Nós plantávamos árvores e também aconselhávamos, vigiávamos. Eu me lembro que um menino de uns 4 anos fez arte e a mãe quebrou um galho para dar uma surra no menino, quebrou sem mais nem menos. Seu danadinho você vai ver. Eu falei assim: minha senhora não faz isso porque o código florestal no seu artigo 26 reza: quem maltratar sob qualquer forma, mais ou menos, a árvore, logradouros públicos ou até mesmo particular, está sujeito a pena de prisão, acho que um ano e multas também.

Então nós cuidávamos perante a lei, fazíamos comunicados, tivemos um gerente do Banco do Brasil que fez parte também. Eu idealizei, criei e dirigi. Depois para não ficar só na minha mão, eu fiz questão de ir dividindo.

Site: Porque não existe ainda hoje?
Fernando: Eu tenho vontade de registrar a Sociedade, se eu tiver ajuda. Eu fazia palestras em escolas, de vez em quando eu faço, praças e jardins, eu faço as minhas músicas:

Vasco Coutinho é o grupo de jardim escolar
É a flor, onde se planta carinho, onde se colhe amor.

São José o meu guia de fé
Nesse colégio o patrono é São José,
Nesse educandário
O meu relicário vou lutar
Vou agir, vou vencer.

Eu guardo tudo na cabeça. Todo dia 21 de setembro eu faço questão de homenagear a árvore. Esse ano nós plantamos uma em frente à Biblioteca Municipal de Vila Velha, um dia maravilhoso (a não ser pelo cartão que me clonaram neste dia lá no Banestes, só neste dia me fizeram onze compras no meu cartão). Mas deixa para lá.

Site: Como o sr. conheceu Sólon Borges?
Fernando: Ele era advogado e tinha um carisma muito grande. Ele era muito católico e fazia o programa da Ave Maria através da Rádio Espírito Santo. Então passou a ser político e prefeito em Vitória, ganhou pra senador, mas na última hora fizeram uma lei e tiraram a senatória dele. Veio aqui para o Espírito Santo, ganhou de Max, ganhou de todo mundo. Max não se candidatou com ele não, mas a sigla de Max, o candidato de Max perdeu pra ele.

Como eu era amigo de Sólon, eu ajudei ele a ganhar. Fui nomeado Secretário de Serviços Urbanos. Três meses depois ele disse: Fernando, você como Secretário de Serviços Urbanos é um grande secretário de turismo. E me botou pra ser Secretário de Turismo e Promoções.

Site: Quais foram suas principais obras como Secretário de Turismo?
Fernando: Eu sou um cara arrojado, eu entro pra avançar. Quando vejo o turismo penando do jeito que está aqui, tão apagado, dá tristeza.

Revivi aqui a festa folclórica A Lapinha, com o finado Clementino Barcellos do qual eu pude desfrutar a amizade dele, amizade enraizada. Fui ao Rio de Janeiro, à Embratur, mandei inserir no calendário da Embratur as festas da Penha e da Cidade.

Consegui lá um vagão de coisas de carnaval que o Rio já considerava velho. Trouxe um vagão de trem cheio daquilo, trouxe uma banda do Canecão, e não satisfeito, bolei um entrosamento, com todos embaixadores radicados do Brasil através dos quais levamos o nome de Vila Velha, dizendo como é Vila Velha, como ela nasceu; a segunda cidade do Brasil mais velha, aquela coisa! Eles então mandaram pra gente o eles puderam mandar da terra deles.

Então fiz um carnaval com aquele monte de coisas, rainha e etc. O rei Momo foi Renato Daher, o 1º Rei Momo de Vila Velha.

Site: Fale de pessoas ilustres de Vila Velha.
Fernando: Temos o Clementino Barcelos que não podemos esquecer nunca, nem o Lúcio Bacelar. Para mim o Clementino foi o Pai do folclore porque ele era de uma sensibilidade fora do comum.

Eu vou te contar uma história. Em 1948 era prefeito aqui Domício Mendes, pai do Osny, pai do Marcelo que foi presidente da Caixa Econômica. Naquela época, o Domício ajoelhava por assim dizer, ao pés das pessoas e dizia: - Pelo amor de Deus pega esse lote de 2.000 metros aqui na esquina, pega pra você, eu te dou, mas dentro de 2 anos você vai construir. Era assim, hoje em dia não se dá. Tanto é que o Marista fez uma exigência absurda, mas fez: Eu aceito mas você anula essa rua Luiza Grinalda, que é Luíza Grimaldi, até onde está o Carone. Aí ela pára. Assim como no portão do Marista também era para continuar.

Tudo isso foi exigência do Marista para poder Vila Velha desenvolver. Isso tudo era um areal danado. Eu não sei muito porque eu não sou daqui. Mas eu estudei alguma coisa e todo mundo sabe que quando Vasco Coutinho aqui chegou em 1535, daí a uns 5 anos, 1540, voltou a Portugal para buscar mais recursos, e como ele era viciado, mascava muito fumo, ele não tinha um passado muito limpo não. Foi quase como um castigo que ele veio para cá. Veio com fidalgos cheios de mania e cheio de bandidos também. Os índios os hostilizaram, chamavam de canela-verde, uns falam que eram as botas dos portugueses eram verdes, outros falam que são algas marinhas, outros falam que os índios pintavam as pernas, a gente não sabe uma coisa certa. Mas vamos chegar mais para minha época, o bonde era uma coisa maravilhosa. A gente saía para Paul.

Site: O sr. tem alguma lembrança sobre o Morro do Moreno?
Fernando: Eu sei que o Clementino de Barcellos foi o primeiro a ver um zepelim lá.

Site: O sr. conheceu o Cabeção, motorneiro, que já deu entrevista ao site Morro do Moreno?
Fernando: Sim, morava no Ataíde. Ele então pode dizer mais do que eu do bonde. Mas o bonde era uma coisa maravilhosa, era uma coisa brejeira, as mulheres não mostravam as pernas, mas quando subiam no bonde, que era um pouco alto, era a vez nossa, de ficar de butuca. Via um pedacinho da perna e era uma festa.

Eu acho assim (ninguém é obrigado a pensar como eu penso), quanto a mulher é mais descoberta, menos valor ela tem. Eu acho que a maioria pensa assim. Ela tem que saber se vestir para despertar aquela atração que a gente tem pela mulher. Eu digo nós, porque eu com 72 anos não pendurei a chuteira não, na parte de admirar a mulher, o sexo frágil. Eles falavam que era o sexo frágil, não tem nada de frágil, tem mulher aí que dá surra em homem.

A primeira rua a ser asfaltada foi a Jerônimo Monteiro e depois a Champagnat. Foi Max que fez isso.

Site: Então como Secretário de Turismo de Vila Velha o Sr. trouxe o carnaval?
Fernando: Exatamente. Fui o primeiro a fazer carnaval em Vila Velha numa sexta-feira, aqui era domingo, segunda e terça, o carnaval tradicional, chama-se terça-feira gorda. Mas naquela época coloquei o carnaval numa sexta e foi aquela coisa, Rei Momo, etc...

Vou contar um caso: o Renato era o Rei Momo. É de praxe o prefeito entregar as chaves da cidade para o Rei Momo e veio uma chave de todo tamanho, dourada, uma fita que foi entregue a ele com essas palavras: “Oh, Majestade, durante a folia momesca, Vossa Majestade é a autoridade máxima no município.” Mas isso para quem tem a cabeça no lugar, tem parâmetros, não é para a pessoa sair por aí dizendo sou o Dono.

Mas o Renato bebia uma cervejinha a mais. Um dia eu chegando no jardim da Prefeitura, que era na Pracinha de Vila Velha, encontrei um jardineiro chorando. Eu perguntei o que houve. Ele disse: “Sua Majestade está me transferindo para Paul porque ele passou e eu não fiz a reverência que ele queria que eu fizesse. Eu falei assim: Me dá um minutinho aí. Eu encontrei o Renato e falei: Majestade, o Papa lhe chama ao telefone. Combinei logo com um amigo para falar que não era o Papa e sim um secretário do Papa. Eu sabia que ele era católico. Então eu disse assim: Majestade (até eu tinha que chamar ele de Majestade...) Perdoa o rapaz. “Sim, mas tem uma coisa, ele tem que fazer a reverência para mim.” O cara nem sabia o que era reverência. Eu fui lá e disse: faz assim para ele. Então ele fez. E o Renato falou: “Não vou transferir mais não.”

Site: O sr. tem participado do carnaval de Vila Velha? O que o sr. gostaria que houvesse aqui?
Fernando: Eu gostaria de participar. Tanto é que eu fiz uma marcha para Vila Velha e estão até querendo tornar essa música o hino oficial de Vila Velha. Vila Velha já tem hino. Mas eles acham que esse que eu fiz não pode deixar de ser o hino de Vila Velha, os vereadores estão querendo. O hino é o seguinte:

Vila Velha tu és mãe de um povo
Onde o belo e o novo emolduram teu perfil
Vila Vila Velha meu amor
Vila Vila Velha linda flor
É um vasto continente,
Um pólo convergente
Do turismo multicor
É um vasto continente,
Um pólo convergente
Do turismo multicor

Foi num 23 de maio
Na Prainha aportou
Vasco Fernandes Coutinho
Vila Velha ele fundou
Frei Pedro palácios
Jóia sacra construiu 
O Convento da Penha
Maravilha do Brasil

A Praia da Costa, Itapoã e Itaparica
São praias ricas, cheias de graça
As tuas sereias expostas na areia ...
A enfeitar a própria beleza, a natureza e o azul do mar
O farol legendário, um missionário imperial
Que guia o homem no mar
Outros pontos turísticos
Cenários artísticos
Para o turista apreciar

A marinha brasileira tem escola neste chão
O 38º BI formando jovens em defesa da nação
Colégios, faculdades, um povo cheio de fé
Santuários ecológicos como a lagoa do Jabaeté

O Morro da Penha, do Moreno e do Penedo 
Contam histórias em belos enredos
O cais de minério, o corredor de exportação
Transportam o progresso desta nação
A indústria, o comércio, folclore e a cultura
São pontos de admiração
Do turista que vem
Do
 turista que vai
Deixando aqui o seu coração!!!
Do turista que vem
Do
 turista que vai
Deixando aqui o seu coração!!!

Essa música vai ser gravada pelo 38º BI, pela banda. Depois vou arranjar uma cantora com uma voz bem possante e vou entregar aos vereadores que estão pedindo. Não quero tirar ninguém do pedestal, de forma nenhuma, mas eles acham que meu hino fala mais de Vila Velha. O outro é: Venha de onde vier...

Site: Poucas pessoas lembram. Talvez não toque ao coração. O sr. é músico também? 
Fernando: Eu gosto muito de tocar uns instrumentos, participo de serestas na Prainha. Vou te contar uma história triste. Eu tinha um neto, de 19 anos. Não fumava, não bebia, um cara muito bacana, todo mundo gostava muito dele. Esse rapaz de uma hora para outra se atirou da 3ª Ponte. Tem 3 anos. O nome dele era Tiago dos Reis de Oliveira. O prefeito agora decretou que aquele espaço na Prainha onde tem seresta, se chame Espaço Cultural Músico Tiago dos Reis de Oliveira. O dia da inauguração ainda não foi escolhido, mas todos vão ser convidados para a inauguração.

Site: Se hoje o sr. fosse Secretário de Turismo, o que faria por Vila Velha?
Fernando: Em 1º lugar, aconselharia o prefeito a baixar um decreto considerando os anos de 2006, 2007 e 2008 como Anos do Turismo. E baixaria ordem de serviço no sentido de que todos os funcionários usassem na lapela um distintivo dizendo Ano de Turismo. Seria a prioridade. E faria na pracinha de Vila Velha, um galpão enorme com palco de shows e stands ao lado com artesãos. E espaço para os ambulantes também. Ao lado, um stand para a polícia, um stand de apoio ao turismo, caixas de som. Livraria essa praça dessa imundície que está aí. Construiria 4 ou 6 banheiros, pois não tem nenhum.

Em contrapartida, livraria as árvores dessas ervas daninhas. As ervas daninhas estão brotando, eles não estão escovando os troncos. Tem pulgões, ácaros de árvores. Tudo está abandonado. Tem árvores aí imunes de corte, que possuem decreto baixado como o Pau-Brasil, que estão urinando no pé dele. Na estátua de Duque de Caxias fazem xixi, até outras coisas. Em primeiro lugar, limpeza no coração da cidade. Chamava um engraxate e dava um distintivo a ele, ao alfaiate, todas as profissões.

Mas não pára aí não. O turismo só se sustentará se ao lado dele se fizer alguma coisa pela ecologia. Turismo sem ecologia não há possibilidade de viver.

Eu criei umas entradas, uma espécie de castelo que seriam colocados na divisa de Vila Velha com Guarapari, na divisa de Vila Velha com Cariacica. Mandaria imediatamente colocar em cima do Penedo uma inscrição “Vila Velha te saúda”, a gás neon.

Site: Todos acham que o Penedo faz parte de Vitória, certo?
Fernando: Exatamente. Você já pensou um letreiro luminoso lá em cima? Todas as firmas querem. A Chocolates Garoto quer. Bota ao lado assim, não ostensivamente: apoio Chocolates Garoto. Você já pensou em chegar ali na divisa de Guarapari e ver Vila Velha saúda turistas e visitantes? E no lado oposto da cidade, a mesma coisa? Nós temos uma média de 29 a 30 km de costa. A gente poderia fomentar mais nas praias, o turista é um menino grande. Eu conceituo ele como cheio de manias. Ele pode ter, ele tem. Ao invés de esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras, eu digo “Esses homens maravilhosos com suas divisas salvadoras.” Eles têm dinheiro e nós temos mais é que carregá-los no colo mesmo. Não pode ser turista de pão com lingüiça.

Site: E na Prainha?
Fernando: Na área da Prainha, faria uma relação geral, visitas à casa de Homero Massena, à Casa da Cultura, coisas que hoje estão abandonadas. A Academia do Livro vai ser reaberta. Domingo (6/11/05) vai ser assinada a ordem de serviço para remodelação. Às 9:00 vai ter uma festa lá, vou fazer uma seresta. Estão todos convidados.

Site: Por que Vila Velha não dá incentivo à publicação de livros?
Fernando: Tem a Lei Rouanet. Eu estou com esse livro meu há praticamente 3 anos. Eles dizem: ah, mas o seu livro é irreverente. Não é. Meu livro chama-se Fatos e Boatos. O nome está dizendo: tem fatos e tem boatos. Eu falo de ecologia, de música, faço paródia contra político sem-vergonha. E aí vêm os causos.

Site: Seria um livro de Crônicas? 
Fernando: Sim.

Site: O sr. já procurou alguém para publicar o livro?
Fernando: Ainda não. Mas está editorado. Tem umas músicas de minha autoria assim:

Cartinha para Papai Noel:

Escrevi uma cartinha pra Papai Noel
Que mora bem pertinho de Papai do Céu
Pedi ao bom velhinho para lembrar 
Que os pobres pequeninos também gostam de brincar.

Billy Boy pistoleiro é uma crítica que faço a Bill Clinton.

Tem esse outro aqui:

Esse sois vós amanhã
Recolhido à vossa eterna insignificância
Lá vós sereis absolutamente igual
Aos que discriminastes aqui na terra.
Bem feito! Dorme, infeliz!

Há muita discriminação nesse mundo. Tem uma que é assim, no ritmo daquela música “Nós somos da pátria amada”.

Não somos da pátria amada
Somos safados, maus camaradas
Fingimos que trabalhamos
Mas na verdade
Só enganamos
“Soldado” lá do Congresso
'Té no recesso só vive em pane
Enquanto a pátria afunda
Nossa grana abunda
E o povo que se dane.

Tem uma assim:

Que bela coisa
É ser viajante
Ir a palácios
Daqui distantes
Ser recebido
Com muitos presentes
Que bela coisa 
É ser presidente.

Por isso eu quero
A reeleição
Sem viajar
Não fico não...

Site: O sr. pode mostrar mais trechos do livro?
Fernando: Sim, veja:

"Se Santos Dumont sequer sonhasse
O que fariam de sua invenção
Por certo não gostaria
De ser o Pai da aviação."

"Se as rosas jamais falaram
O poeta já me fez entender
Mas basta olhar para elas
Que entendo o que querem dizer."

O retrato da Monalisa é enigmático. Não se sabe se ela chora ou ri. Então ouça essa:

"Para bem viver a vida
Qual Monalisa é bom se portar
Sorrir com o canto da boca
E com o outro canto chorar."

"De Cuba importei charutos
Da Holanda moinhos de vento
Da Alemanha cerveja das boas
Camisas mandei vir de Vênus.
"

Site: Parabéns, temos que valorizar as pessoas da nossa terra!
Fernando: Eu fico muito alegre em dar essa entrevista, porque o valor que eu tenho... sou capaz até de chorar feito criança... Faço discursos com o coração. Escuto alguns que tenho até vergonha de ouvir.

Nunca roubei, nunca aceitei propina. Eu estava numa situação difícil, me ofereceram e aí pensei: E meus netos? Posso ser preso. A ética falou mais alto, não aceitei nada. Fui Chefe de Cerimonial de Vila Velha, Diretor de Cultura, Coordenador de Atividades Culturais, Assessor Técnico da Secretaria de Educação e hoje, sou Chefe da Biblioteca Municipal. Paralelo a isso, sou consultado para entrevistas, para falar em palanques, cantar, declamar, eu gosto.

Essa faço questão de mostrar. Também está no livro:

Mensagem ao Pai Poderoso

Como derradeira esperança
Atirei aos céus a lança
Em favor do meu País
Dos menos favorecidos
Do “João Ninguém” infeliz.
Com tristeza e muita mágoa
Com os olhos marejados d’água
A Deus Onipotente, contei:
Pai, o pobre desvalido
Vive aqui tão esquecido
Sem direito à própria lei!

É que os poderosos, sem raça
Que corroem qual traça
Chupam o sangue dos seus irmãos!
Massacram sem dó sua gente
Sem nenhuma compaixão!

Aos maus consomem os dinheiros
Dos pobres dos brasileiros
Sem ter pena de ninguém
Parece uma nova “Sodoma”
(Pelo menos tem todos os sintomas)
Onde o malvado tudo tem.
Os ricos, os poderosos, são:
Cruéis e mentirosos!!!
Ó mundo cão!
Com as caras mais lambidas
Dizem que suas subidas Foram obras da razão
(Que enganação)
Na verdade esse tipo de homem
Que não honra seu próprio nome...
Que um dia recebeu,
Engana a sua própria consciência
Numa constante indecência
Zombando do próprio Deus!
Oh, Pai
O pobre está quase morto
Devolva-nos o Alvarenga Peixoto
E também o Padre Rolim
Ah, sim, nestes entrementes
Mande-nos o grande Tiradentes
Comandar a redenção
Para acabar com os maus
Para nossa salvação.

Entrevista com Fernando Oliveira - 04/11/2005 – Por Mônica Boiteux



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