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O ciclo das águas e a falência do Rio Muqui

Capa do Livro de Ester Abreu Vieira de Oliveira

A água foi o fator decisivo para a vida surgir e se desenvolver na terra. Ela tem, nas forças da natureza, a responsabilidade pelo seu ciclo. Esse precioso líquido é distribuído, na Terra, por três reservatórios principais: o oceano, os continentes e a atmosfera. Entre eles existe uma circulação contínua, o chamado ciclo da água ou ciclo hidrológico, responsável pela renovação da água no planeta, que se inicia com a energia solar, responsável pela evaporação das águas dos rios, reservatórios e mares, bem como pela transpiração do planeta.

Cerca de 71% da superfície da Terra é coberta por água em estado líquido. Aproximadamente 97% do total desse volume, estão nos oceanos. Quase 2% da água do planeta está em estado sólido, nas enormes massas de gelo, nas regiões próximas aos polos e no topo das montanhas.

Em março de 2007, o Le Monde noticiou a advertência de especialistas sobre o aspecto climático: “A escassez de água, problema que afeta bilhões de pessoas, pode ser triplicada como consequência do aquecimento global”.

Koichiro Matsuura, diretor-geral da Unesco, alertou que a escassez de água e a rivalidade que ela provoca também ameaçam a paz e a eliminação da pobreza, obrigando-nos “a procurar uma repartição mais eficaz e igualitária desse recurso essencial”. Segundo dados da Unesco, uma em cada quatro pessoas no mundo não tem acesso a água potável e 40% da população mundial não dispõem de serviços de saneamento básico. O Grupo Intergovernamental de Estudos sobre Mudança climática (GIEC) afirma, categoricamente, que, até 2100, deve haver um aumento de 1,8º a 4º na temperatura média do planeta.

Essas notícias e as que a gente ouve ou lê nos noticiários me fizeram pensar em meus contatos com a água e no meu conhecimento sobre ela. Assim começarei pela maior quantidade de água, a que fez parte do meu cotidiano, no fluir contínuo, no fundo do quintal de nossa casa, e a que conheci em um verão passado em Marataízes: o mar.

Certa vez chegamos, nós, crianças sonolentas, em um trem que saiu de Cachoeiro de Itapemirim ao, então, vilarejo de Marataízes. Fomos para uma pensão onde estavam hospedadas Dona Catília e suas filhas (nessa época não havia hotéis em Marataízes).

De madrugada, acordei com minha mãe nos chamando para vermos, da janela do quarto, um barco iluminado que desaparecia no horizonte e o sol despontando. Respirei forte, aspirando um novo cheiro: o da maresia. Vi pontos de luz que se moviam em uma grande extensão de cor cinza-clara. E minha mãe nos disse: é o mar. Depois, com a luz do sol, vi que a água era azul, que se movia muito e que, ruidosamente, batia na areia. Como se diferenciava das águas cantantes que corriam no rio do quintal de minha casa! Lá, na prainha, brincávamos de índios e de outras brincadeiras e nos banhávamos jogando-nos água ou batendo os pés e, lá, meu pai pescava lambaris e traíras!...

O ruído do mar era mais forte do que o das cachoeirinhas dos córregos da fazenda. Como o mar enchia o ar de cheiro e sons! Como brilhavam em suas areias ao sol! Como a minha pele se queimava, avermelhava-se, descascava-se, nos dias em que estivemos perto do mar!

Quando entrávamos no mar, era só na beirinha, onde morria a água. Só íamos mais fundo quando meu pai nos levava e nos colocava sobre uma câmara de ar que subia e descia obedecendo ao movimento das ondas. Ah! Embalada pelas águas e sob a proteção de meu pai, não tinha medo. Minha mãe ficava saltando mais perto da praia.

Um dia choveu, quando estávamos dentro da água. Com medo, corri para dentro da pensão para proteger-me. Pois, se as águas do rio, que passavam no quintal de nossa casa, subiam e iam, às vezes, até perto da escada da cozinha, imagine, pensava, aquela quantidade bravia de água! Até onde iria? Contudo, surpreendeu-me o acontecido: aquela imensidão de água não aumentava com a chuva.

Na primeira manhã em que fui ver o mar de perto, provei da água. Era salgada mesmo, como minha mãe me havia dito. Havia muita água, tanta!... Mas não podia ser tomada. Tinha sede, mas aquela imensidão de água não acabava com ela. No entanto, a água que, no sítio do meu pai, na Cachoeirinha, antes de ir para a várzea de arroz e mover o moinho, caía das bicas, improvisadas por grossos troncos de bambus, podia ser tomada com as mãos em conchas ou em folhas côncavas de taiobas. Era branca como pérola, risonha. Ela corria no meio da verde folha, molhava-nos os pés, o rosto e umedecia a nossa roupa. Era fresca e agradável. Sem grandes estardalhaços, beneficiava a todos.

Depois desse meu rudimentar conhecimento do mar, fiquei sabendo que um outro mar e mais salgado que o de Marataízes havia. E, lá, nada podia viver. Quem não soubesse nadar poderia entrar em suas águas sem medo, sem necessitar de alguém que o protegesse ou de boias para se apoiar. Nele nada afundava. Ele ficava perto de onde Jesus nasceu. Em suas águas havia tanto sal que nem peixe, nem algas, nem camarão, nem nenhum outro ser vivo conseguia viver ali. Era o mar Morto das águas mais salgadas da Terra. Ali, em Marataízes, pelo menos, o mar refletia, viam-se muitos peixes, os quais eram trazidos, em grandes barcos, pelos pescadores. Eram grandes os peixes. Maiores que os que eram pescados em nosso rio. Eram maiores que as traíras que meu pai pescava no rio que passava pelo quintal de nossa casa.

Para o local dos pescadores, ia com meus pais e minha irmã, às vezes, com as coleguinhas da pensão, ver a chegada das canoas. Ficava na direção da igrejinha, à esquerda da pensão. Perto havia umas grandes pedras, onde as águas batiam e desciam cor de leite. Era um lugar perigoso. Minha mãe não gostava que fôssemos ali. Uma vez, em uma de nossas idas ali, quase que minha irmã escorregou para dentro do mar.

Nesse meu despertar para os conhecimentos marinhos, numa rudimentar oceanografia, fiquei sabendo que o sal das águas do mar era produto de deságue das águas dos rios e das chuvas, durante um longo percurso de milhões de anos. A chuva formou cursos de água que iam dissolvendo, lentamente, as rochas nesses períodos geológicos. Nelas o sal comum é encontrado em grande quantidade. Esses cursos de água desembocavam no mar. Como todos os rios correm para o mar, este ficou com quase todo o sal. Que curioso me pereceu esse processo de assimilação! E mais: o sal veio da terra e buscamos no mar!

O rio Muqui do Norte passava tranquilo por pomares. As pendentes amoreiras brindavam-lhe sombra e tranquilidade em seu curso, Ele, por sua vez, refrescava as mangueiras frondosas, as copadas jabuticabeiras e as esgalhadas goiabeiras, em seu contínuo percurso em direção ao seu copular com o Itapemirim, como seu último grande afluente, antes da desembocadura deste no Oceano Atlântico.

O rio Muqui não era como outros rios que se mostravam pelo centro da cidade exibindo as suas águas. Não, ele era um rio íntimo dos moradores. Não era de muitas pompas. Passava no fundo dos quintais. Em dias de chuva, como as de março, ele crescia mais afoito para buscar as amarelas goiabas. Era a enchente das goiabas, que ele nos anunciava com um forte cheiro de terra molhada, característico de suas cheias. Também, nas chuvas de novembro, que chegavam acompanhadas de fortes ventos, de relâmpagos e de trovões, ele subia até perto de casa. Nessa ocasião, viam-se, no centro de sua superfície, caules de bananeiras ou touceiras de capim sendo levados pela correnteza. Às vezes, ia sobre essa improvisada embarcação um pato ou uma galinha, marinheiros clandestinos. Assemelhavam-se a jangadas.

As águas permaneciam barrentas durante alguns dias. Contudo, o rio que passava por nossos quintais para ir para outro rio, levando as suas águas corrompidas por nossos quintais para o mar, não era, habitualmente, assim. Seus pequenos barrancos esverdeados e suas praias humildes continham a sua singela correnteza, que, nessa época, não levava resíduos de uso de agrotóxicos, pois, se havia lagartas nos pastos, não se colocava esse tipo de veneno. Eu nem ouvia falar disso. Nessas ocasiões, chamavam o Seu Armênio para benzer o local, e essas pragas acabavam.

Para o leito do rio, no Entre Morros, pendiam, de um lado, arvoredos, touças de capim e as árvores de nossos pomares, e do outro, as moitas da verde pastagem (nessa época, não havia casas, nem a rua de deságue dos bois, construída durante a administração do Dr. Dirceu, só uma olaria e um sítio, um pouco distante de nosso quintal).

Ao meio-dia, quando voltava do colégio, eu ia apanhar as piabas, que se escondiam do calor nas pequenas manilhas, que eu punha perto da mangueira, numa curva escavação do barranco, feita pelas águas em dias de turbulência.

O silencioso rio Muqui, que banhava o meu quintal, era o mais largo rio que conhecia, antes de ver o Itapemirim, e não tinha pedras. Os córregos da Cachoeirinha, que nele desaguavam, eram estreitos, empedrados e barulhentos. As pedras nos dificultavam tomar banho neles. Havia alguns poços, mas muito poucos. O maior ficava perto do curral. Era ali que sonhávamos com uma piscina. E para ali íamos todos aos domingos.

Mas, como as águas dos rios têm como destino os mares, não sabia se sabia, além do nosso pomar e os dos vizinhos, no percurso do rio Muqui, alteração de comportamento no leito do rio até o seu deságue.

Certo dia, num final de novembro de 1950, aconteceu caírem grossas gotas de água. O céu escureceu e desceu para a montanha. Trouxe consigo impiedosas águas, que fizeram deslizar, morro abaixo, pedras, pés de café e outras plantas que chegaram ao rio e o fizeram transbordar.

A precipitação é um fenômeno atmosférico de o vapor da água, formador das nuvens, transformar-se em chuva, neve ou granizo, dependendo das condições climáticas. Esse fenômeno caiu tão forte e repentinamente em Muqui, que inundou pomares, casas e ruas. O aguaceiro provocou a invasão violenta das ruas pela água barrenta, que levava em seu dorso, pontes, objetos e animais domésticos. Tocada pela fúria, a água avermelhada perturbou a ordem da cidade, arrancou encanamentos de água potável de algumas casas, obrigou moradores a saírem de seus lares em busca de abrigo entre os vizinhos solidários.

As chuvas esperadas eram as benfazejas de setembro. Época em que se começava a azáfama no campo: plantio de milho e feijão. As de novembro causavam pavor, pois traziam grossos pingos de água que pareciam marchar, como bons soldados, pelos regos improvisados. Elas vinham acompanhadas de riscos de luz no céu e dos terríveis trovões. Estremecia a casa. As janelas do prédio desabitado dos Rambalducci batiam, Os coriscos caíam nos para-raios e amedrontavam a minha mãe, que queimava palha benta, cobria os espelhos e punha toda a família a rezar na sala.

Às vezes, em novembro e dezembro, as chuvas não vinham. Então a procissão passava. Os fiéis rezavam e cantavam pedindo a Deus a dádiva de cair água para revigorar a terra. Havia penitentes que levavam pedra na cabeça. Na frente, puxando os penitentes, vinha uma pessoa segurando um estandarte com a imagem de um santo, que, em gral, era a de São Sebastião. Todos esperavam que viesse a chuva benfazeja para que tivessem uma boa colheita de milho, de feijão e, principalmente, de café, e para que o gado, já enfraquecido com a escassez da erva, pudesse engordar. E foi, precisamente, em um final de novembro que as nuvens desceram e a tromba d’água deixou grandes sequelas na cidade de Muqui.

Hoje não existe a prainha do quintal de nossa casa, nem as amoreiras e nem os pequenos barrancos feitos pelo roer do rio na terra por onde ele passava. Não mais o rio limita os pomares da pastagem e nem ele fica escondidinho, exclusivo dos moradores, Porque hoje, altos barrancos, alguns feitos pelas obras municipais ou particulares, o espremem e o limitam da rua, por onde transitam pessoas que quase nem o olham, e nem eles as faz sonhar. O rio não mais proporciona brincadeiras ou sonhos. Ninguém se diverte mais nos banhos nem excursiona pelas cercas de amoras dos pomares vizinhos, pois as suas águas estão sujas de detritos e os barrancos o espremem contra os pomares, dificultando às pessoas a visão das escassas águas escuras do rio.

Agora, as águas desse rio são vistas como escoamento para os dejetos. A cidade cresceu sem a preocupação de preservar o rio e o ecossistema. Ele não serve mais para a pesca, como utilitário pra a sobrevivência de alimentação, nem para as brincadeiras infantis, dos meninos do Entre Morros, pobre rio! Estão matando aquele que foi o mantenedor de sonhos!... Preservá-lo, é, ainda, possível?

 

Fonte: Recordações de Muqui – cidade menina – em prosa e verso, 2010
Autora: Ester Abreu Vieira de Oliveira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2012 

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