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Ouro Negro

Ouro Negro - A crise cafeeira acabou se tornando uma vantagem para o Estado, pela versão do conilon

No começo de 1960, o Espírito Santo vivia o pior momento da sua história. A cafeicultura, que sustentava a economia desde a segunda década do séc. XIX, e ocupava mais de 500.000 hectares no Estado, passava por uma grave crise setorial. A seqüência de supersafras determinou uma intensa e irrecuperável queda dos preços do grão (de US$ 86, em 1962, a saca passou a ser vendida por apenas US$ 39, dois anos depois).

Ao contrário de outras crises ao longo da história, em que o governo federal preferia queimar milhares de sacas para diminuir o estoque e, conseqüentemente, a oferta do produto, desta vez, a União optou por um plano mais agressivo: a erradicação imediata dos cafezais até que a capacidade produtiva se equiparasse às necessidades do mercado. Isto foi feito por meio do Grupo Executivo de Racionalização da Cafeicultura (GERCA) e do Instituto Brasileiro do Café (IBC). Resultado: num espaço de cinco anos, entre 1962 e 1967, nada menos do que 300 milhões de pés de café foram destruídos (o equivalente a 53,8% do cafezal capixaba), deixando 60.000 trabalhadores sem emprego.

Esta erradicação convulsionou a economia local e agravou os problemas sociais, já que 200.000 famílias foram obrigadas a migrar da região rural do Estado para a grande Vitória, que não possuía estrutura suficiente para absorver um êxodo tão alto de trabalhadores. Outras tantas deixaram a terra natal em busca de oportunidades em regiões vizinhas, como no Rio de Janeiro. Dos Estados brasileiros que passaram pela mesma situação, o capixaba foi, sem dúvida, o que mais sentiu o baque: perdeu metade da área plantada, enquanto Minas Gerais retraiu 33%, São Paulo 28,4% e Paraná 26%.

Com a crise do café, o Espírito Santo correu o sério risco de, novamente, perder o fio da história. O Estado já havia enfrentado um período difícil entre os sécs. XVIII e XIX, quando a descoberta de ouro em Minas Gerais fez com que o governo português usasse o Espírito Santo como escudo para proteger as riquezas de Minas, causando o isolamento e um atraso de quase um século. A região ficou conhecida como "Barreira Verde" - naquele território era proibido construir estradas, com a intenção de dificultar o progresso para o interior, e no lugar delas, foram erguidas fortificações impedindo navios de povos invasores de aportar.

O longo isolamento causou estragos definitivos e imensuráveis. E foi assim que o Espírito Santo se tornou dependente quase que exclusivamente da cafeicultura. Há o lado positivo, evidentemente: graças ao produto, foram construídas, a partir do séc.XIX, estradas de rodagem e de navegação interprovinciais e, mais a frente, o porto de Vitória. Mas ter praticamente uma única fonte de receita econômica foi um problema.

"A erradicação foi um momento dramático para os cafeicultores do Estado", recorda Jônice Tristão, sócio da Real Café, empresa do grupo Tristão, um dos maiores e mais tradicionais do setor brasileiro de café. Mas foi justamente o desenvolvimento de outro tipo de café que salvou o Estado da crise. O nome do herói da lavoura é conilon - uma variedade que tinha um cultivo marginal no sul do Estado. E, é aí, que as vidas de Jônice e a de Arthur Gerhardt se cruzam novamente, embora já se conhecessem de longa data.

Na época da crise cafeeira, ao longo de toda a década de 60, Arthur esteve à frente da Companhia de Desenvolvimento do Espírito Santo (CODES) onde, entre outras funções, negociou com o governo federal (via GERCA/IBC) as indenizações pela erradicação do café. Pelos pés dizimados o Estado receberia recursos que deveriam ser aplicados na diversificação e modernização da agricultura. Afinal, as diretrizes seguidas pela Codes, assim como no governo de Christiano Dias Lopes (1967 - 1970), eram orientadas para a industrialização - o que se verificaria com mais força, anos depois, no governo do próprio Arthur Gerhardt.

Na gestão de Dias Lopes, havia, na verdade, quatro frentes de trabalho a serem seguidas, com base no estudo "Diagnóstico para o Planejamento Econômico do Espírito Santo", contratado pela Federação das Indústrias (FINDES). E, uma delas, se baseava em alavancar as atividades econômicas tradicionais do Estado, ou seja: revitalizar as atividades com o café (além de considerar outras culturas como açúcar, cacau, milho, mandioca e madeira). Assim surgiu a oportunidade de revitalizar o plantio do conilon (também conhecido como robusta). Mas havia resistência, já que o Estado produzia o café arábica e o Brasil havia conquistado fama, lá fora, pela boa qualidade de seu grão. "O IBC era contra, porque achava que perderíamos a qualidade", lembra Gerhardt. Na verdade, o IBC estava proibido de incentivar o cultivo do conilon, sob o argumento de que essa espécie (em tese, de menor qualidade) puxaria os preços do café para baixo. Para contornar essa situação, o governo do Estado contou com a colaboração de três prefeituras (Colatina, São Gabriel da Palha e Pacas), que criaram viveiros para a geração de mudas da espécie conilon que foram distribuídas aos agricultores.

Respaldado por Gerhardt, o IBC - tempos depois - rompeu a dependência em relação à produção do café arábica e decidiu apostar no plantio do café conilon, bastante utilizado na industrialização do café solúvel. A ambição era maior do que uma mera plantação. "A idéia de Dr. Arthur era construir no Espírito Santo a primeira indústria de café solúvel do Estado, o que seria uma saída para crise e também começo dos grandes projetos", afirma Tristão. Houve disputa com Estados do Paraná e de São Paulo, mas o Espírito Santo, como lembra o empresário, levantou a bandeira de que o Estado foi um dos precursores no plantio dessa espécie.

O primeiro plantio de robusta em terras capixabas dera-se, na realidade, nos idos de 1912, quando o governador Jerônimo Monteiro levou sementes do grão para Cachoeiro do Itapemirim, na região sul. Apesar da iniciativa, não houve avanços naquele tempo. Fazia todo sentido, então, a idéia de Arthur Gerhardt de não apenas revitalizar o plantio do conilon como fazer uma fábrica de café solúvel. Afinal, na época, o Espírito Santo era o terceiro produtor nacional e o seu café era considerado o pior do Brasil, mas havia uma produção de 100.000 sacas do café conilon e, o que poucos sabiam, é que conilon é a matéria-prima mais usada no mundo para fazer café solúvel porque seu teor de extração é mais forte. "Era um café marginal, vendido para as torrefações locais que exportavam, já que havia demanda do exterior e aqui não tinha mercado", diz Tristão. "Falei ao Arthur: topo o desafio e o risco".

Na época, Tristão e o então sócio, Manoel Ferreira (ele saiu do negócio um pouco depois) investiram US$ 100.000 e o Dr. Arthur, como presidente da Codes, integralizou os outros R$ 500.000 necessários para iniciar os estudos do projeto. "Tínhamos o risco, mas ele nos garantiu que, se desse certo, o Bandes (antiga Codes) venderia as cotas para a gente."

Quando terminaram os estudos, este capital já havia sido praticamente utilizado e os sócios aprovaram a entrada definitiva no projeto - sendo que o sócio Manoel Ferreira saiu e grupo Tristão assumiu e integralizou as partes dele e do governo. Naquele ano, ainda conseguiram - conforme prometeu Dr. Arthur - um financiamento do Bandes de US$ 3 milhões. E ainda um incentivo fiscal do GERCA. "E assim nasceu a indústria, mas sem o apoio do Dr. Arthur jamais teria saído do papel", emociona-se Jônice.

O conilon foi bom para a erradicação do café no Estado e para o grupo Tristão. Hoje o grupo é o maior produtor de café solúvel com conilon no Brasil. Fundada em 1935 por José Ribeiro Tristão, a então modesta loja de secos e molhados situada na cidade de Afonso Cláudio, na chamada região das Montanhas Capixabas, aceitava o café como moeda de troca, mas em apenas 15 anos, a partir dos anos 50, se tornou uma das potências do ramo cafeeiro. E, como todas as empresas do setor, a Tristão viveu um período de grande turbulência e dúvidas após a o plano de erradicação promovido pelo governo nos anos 70. A solução encontrada pelos executivos da Tristão foi utilizar o conilon como produto matéria-prima para a indústria do café solúvel, este em pleno crescimento na Europa e nos Estados Unidos.

Nesse período, a Tristão inaugurou, em 1971, a Realcafé Solúvel do Brasil, situada em Viana, região da Grande Vitória, que, além de abrir definitivamente as portas para a produção do café robusta no Espírito Santo, teve uma grande importância política e econômica para o Estado ao romper a tendência do Governo Federal de autorizar a instalação de indústrias do setor apenas nos estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais, então os maiores produtores de café do país.

A Tristão correu enormes riscos na época, já que todo o plantio de café no Estado do Espírito Santo, cerca de 500.000 hectares, era voltado para a produção de café arábica. A Realcafé, porém, não recuou garantido a compra de toda a produção da época, cerca de 100.000 sacas de café. No fim da década de 70, a Tristão já era o maior grupo exportador de café do Brasil. O Espírito Santo também cresceu como Estado, sobretudo economicamente. Diminuiu a dependência do café, sem que isso resultasse na queda da produção do produto. Pelo contrário - o café continua sendo a principal atividade agrícola do Estado (43% do PIB agrícola) gera 400.000 postos de trabalho e sustenta mais de 130.000 famílias. Mas os capixabas não dependem mais apenas de sua produção - o Estado diversificou seu parque industrial e hoje é forte em outros segmentos.

Graças às políticas de expansão do café robusta, o Espírito Santo tornou-se uma potência mundial de produção de café - se fosse um país, o Estado seria o terceiro maior produtor mundial do café conilon, perdendo apenas para o próprio Brasil e para o Vietnã. Originário da África Ocidental, o café robusta é responsável, hoje, por um terço do café produzido no mundo. Seu custo de produção é menor do que o custo do café arábica, devido às características do grão, que é mais resistente às mudanças climáticas e menos dependente do uso de defensivos agrícolas. Possuí duas vezes mais cafeína do que o arábica e, por ter maior quantidade de sólidos solúveis, é mais utilizado como ingredientes de blends.

Com apenas 0,5% do território brasileiro, o Espírito Santo é responsável hoje por uma produção anual de cerca de 11 milhões de sacas, entre arábica e conilon, oriundas de 60.000 propriedades. É o segundo maior produtor do país (atrás apenas de Minas Gerais), com 25% da produção nacional. Quando se trata apenas do café conilon, ninguém supera o Espírito Santo, responsável por 75% da produção brasileira. O conilon é plantado em 64 municípios do Estado - os maiores produtores são: Vila Valério, Jaguaré, Sooretama, Linhares, Rio Bananal, São Mateus, Nova Venécia, Pinheiros e São Gabriel da Palha - todos esses municípios têm produção acima das 400.000 sacas por ano.

No ciclo 2012/2013, a produção estadual de conilon bateu novos recordes. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a produção chegou a 9,7 milhões de sacas, impulsionada pelo aumento da demanda por café conilon nos últimos anos, principalmente para a composição de blends do produto industrializado. Hoje estimativas apontam que o café robusta represente 45% do consumo total de café no Brasil - há duas décadas era de apenas 20%. E os planos para os próximos anos são ainda mais ousados. A prioridade do Plano Estratégico da Agricultura Capixaba - novo Pedeag - é a de dobrar a produtividade e produção estadual até 2025. O Espírito Santo, definitivamente, espantou os fantasmas do passado, superou as mazelas e as barreiras impostas no período colonial, a difícil posição geográfica, para se tornar atualmente um dos Estados mais dinâmicos e promissores do país.

 

Fonte: Arthur Gerhardt: O Construtor de Futuros, 2014
Autor: Chris Martinez
Editora: Abook
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2014



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