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Peixe na telha - Por Walter de Aguiar Filho

Peixaria de Guarapari

É carnaval. O mercado de peixes de Guarapari está lotado. Há uma movimentação grande de pessoas circulando com vestígios de confete e purpurina, levando nas mãos peixes, camarões e, claro,  latinhas de cerveja. 

Encontro um conhecido de Vila Velha que logo me dá uma dica preciosa: “Vai ao peixeiro da banca da esquina. Os produtos lá são de primeira qualidade!”. Lembro imediatamente do tempo em que era criança e ia para Guarapari no verão com meu pai e meu tio Paulo. Os dois também tinham seus macetes. O principal era comprar badejo direto do Siriba, um pescador que ancorava seu barco às margens do canal, bem próximo ao local onde hoje fica o mercado de peixes.

Só pela sua simpatia, o peixeiro da banca da esquina já me dá a sensação de que realmente seu produto é de primeira. E é. Faço uma festa comprando um quilo e meio de camarão (médio e descascado) e um bitelo de um dentão de três quilos. Não desejo me alongar na receita deste peixe, mas é essencial comprar antecipadamente azeite extra virgem, pimentões coloridos (um de cada cor, verde, amarelo e vermelho) e meia dúzia de bananas da terra. Isso adianta bastante, pois não é em qualquer lugar que estes ingredientes estão à mão e com preços módicos.

Para facilitar ainda mais a compra dos produtos da receita, na frente da peixaria há umas barraquinhas onde compro quatro maços de coentro, três limões, uma cabeça de alho, seis cebolas e um saquinho de colorau, esse para ser usado somente no preparo do camarão.

Entro no carro com toda a parafernália e zarpo. Imagino que o pessoal já está me aguardando com certa suspeição, para saber que negócio é esse de peixe na telha e suponho que você também. Então, vamos logo à receita:

Coloque o peixe numa forma de alumínio de tamanho próximo ao do bicho. Se ele ficar mal acomodado, um pouco inclinado, corte um pequeno pedaço do rabo para ajeitá-lo melhor na forma. Outro ponto importante é a limpeza do peixe. Mande tirar apenas as vísceras e as escamas, mantendo a espinha dorsal. Peixe sem a espinha pode ficar todo retorcido depois de assado.

Tem muita gente que gosta de fazer uma farofa, colocar na barriga do peixe, costurar e só aí levar ao forno. Não recomendo. Não é uma dica muito prática. Além de dar um trabalho danado, o peixe fica inchado igual a uma bola!

Sei que você deve já estar agoniado e pensando: Que receita de peixe é esta que não sai nunca! Tá estressado? Abre uma latinha. É só uma brincadeira. Vamos voltar à receita. Lembra onde parei? Não lembra mais? Vou lembrá-lo.

Depois de colocar o peixe na forma, coloque sal e limão. Faça o mesmo com os camarões em um recipiente a parte.   Deixe-os descansando, abra outra latinha e vá cortar os temperos. Pique as cebolas, os pimentões, o coentro, a cabeça de alho e reserve. Este processo é demorado. Entre o pica-pica e uns golinhos, dá para beber mais duas latinhas.

Voltemos ao peixe. Agora que está marinado, faça com uma faca quatro rasgos na parte superior e acrescente azeite, cebola, pimentão, alho, mais sal a gosto e leve-o ao forno por um período de uma hora e meia (fogo médio).

As bananas da terra devem ser pouco cozidas à parte na água fervendo, de maneira que fiquem firmes e não venham a desmanchar. Reserve-as.

Quanto aos camarões, que também já estão marinados com limão, deve-se escorrer toda a água e colocá-los numa frigideira grande com alho e azeite aquecido. Dê uma rápida tostada. Cuidado para não cozinhar muito e os camarões ficarem pequenos, duros e emborrachados. Só uma tostadinha. Quando o som de fritura mudar para o som de cozimento, desligue o fogo e reserve-os. É uma verdadeira farra, agora já tem até ouvido entrando na receita.

Tem também muita reserva. Reserve o peixe pra lá e reserve o camarão pra cá, para quebrar essa redundância abra outra latinha e depois em uma outra panela, acrescente alho, azeite, pimentão, cebola e coentro (a cebola e os pimentões são tirados da forma do peixe, que já está em andamento no forno). Junte a essa mistura caldo de frango, colorau e as bananas. Deixe ferver um pouco, em seguida acrescente os camarões. Esse prato já está pronto.

Preste atenção numa coisa. O andamento do peixe no forno deve ser acompanhado. Volta e meia abra a porta do forno e observe o volume d’água e o cozimento do peixe. O tempo de forno, como já falei, é de uma hora e meia ou um pouco mais.

Uma dica importantíssima é que o peixe deve ser servido por uma pessoa que entenda para não despedaçá-lo. Após servir todo o lado superior do peixe, retire toda a espinha dorsal.

Sirva no prato o peixe e os camarões com as bananas da terra, acompanhados de arroz branco e farinha de mandioca. Esta receita dá para oito pessoas.

E você deve estar se perguntando: - Por que o nome dessa receita é peixe na telha? E eu lhe respondo. Abra uma latinha, vá tomando e picando os temperos e o que for lhe dando na telha, vá fazendo. Mas, um último lembrete: vá com uma certa moderação nos temperos, principalmente no sal, nas latinhas nem precisa se falar...

Se gostou da dica e não for dirigir, então abra uma latinha pra comemorar, pois é carnaval!

 


Ingredientes da receita:

Dentão – 3kg

Camarões – 1 ½ kg

Pimentões – vermelho, amarelo e verde (01 de cada)

Bananas da terra – 06 unidades

Coentro – 04 maços

Limões – 03 unidades

Alho – 01 cabeça

Cebola – 06 unidades

Coloral – 01 saquinho

Azeite extra-virgem – 01 lata 200ml

Cerveja em lata – 01 Caixa

 

Autor: Walter de Aguiar Filho - Membro da Academia de Letras Humberto de Campos, Instituto Histórico e Geográfico do ES (IHGES) e Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha - Casa da Memória (IHGVV - CM)

Escritores Capixabas

Regina Helena Magalhães

Regina Helena Magalhães

Regina Helena Magalhães nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (ES), mas muito jovem ainda fixou residência em Vitória, capital do Estado. Bacharel em Pedagogia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), especializou-se em Psicologia Pedagógica na Universidade de Madri. Licenciada e Mestre em Educação pela Pontíficia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, exerceu o magistério na UFES, lecionando Didática e Prática de Ensino de Pedagogia.

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