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Dom Pedro II em Linhares

Linhares - Desenho de D. Pedro II

Sua Majestade Imperial D. Pedro II chegou a Vitória em 26 de janeiro de 1860. Esta vinda, à então Província do Espírito Santo, fazia parte de uma longa viagem pelo norte do país. Os detalhes de sua visita são contados, numa linguagem leve e agradável, no livro de Levy Rocha, e são fundados em laboriosa pesquisa. Vitória engalanou-se toda para recebê-lo e a sua comitiva, vindo junto sua esposa, Imperatriz D. Teresa Cristina Maria. De Vitória, o Imperador passou por várias Vilas e chegou a Linhares numa noite de sexta-feira, 3 de fevereiro de 1860.

Dizer o que significou para a nossa pequena Vila aquela visita é quase impossível. Mais fácil seria imaginar, ao lerem as dezenas de ofícios e prestações de contas que Carlos Augusto Nogueira da Gama, presidente da Câmara, enviou ao Presidente da Província, senhor Dr. Pedro Leão Vellozo, dando ciência dos preparativos e gastos.

Desses papéis, salta à vista um quadro perfeito do corre-corre: dúzias e dúzias de foguetes, metros e mais metros de cetim, seda branca e morim; fitas e mais fitas; retrós, papéis, incenso, tocheiros, tábuas, pregos de Paris, velas, bacalhau e cerveja. Listas pormenorizadas dos nomes dos “jornaleiros” que foram empregados para abrir estradas, limpar a praça, as poucas ruas e caiar todas as casas da Vila.

Impossível deixar de repetir aqui os versos que Levy Rocha aplicou a Vitória e que também “calham” direitinho em Linhares:

 

“Oh! Que espetáculo encantado!...

 

Nunca vi tanto pedreiro,

Tanta brocha, tanta cal!

Pra vinda dos Imperantes

Caiaram-se até semblantes,

Pra que tudo fosse igual...”

 

E depois, “toca a varrer” e a limpar e a enfeitar! D. Silvana Maria Lírio e outras pessoas receberam 20 mil réis para ornamentar a casa de Anselmo Calmon – onde se hospedou o Monarca. E a capela? Esta foi iluminada com profusão de velas e tocheiros e recebeu um dossel de madeira coberto de cetim, para abrigar o Imperador.

No antigo porto, uma primorosa rampa de madeira foi feita para o desembarque. E o resto fica por conta da imaginação: roupas novas para quem podia e as casas, de telha ou palha, limpas, esfregadas, lustradas, como se sua Majestade fosse entrar em cada uma.

E mais tarde, “o contentamento do povo, formando duas alas, desde a margem do rio e barranca acima até a grande praça, bordada de coqueiros e à luz dos mesmos archotes” que guiaram D. Pedro até a estrada.

(Todas as informações a seguir foram extraídas do livro de Levy Rocha que contém “O Diário” de D. Pedro sobre a vinda ao rio Doce e a outros lugares. Portanto, não usaremos aspas nem referência bibliográfica numérica. Para maiores detalhes consultar a citada obra).

Para chegar a nossa vila, o Monarca viajou em grande canoa, preparada para este fim, passando pela Barra do Riacho, Lagoa e Quartel de Aguiar. Daí seguiu a cavalo no caminho mandado abrir recentemente pelo Governo, sob a supervisão do capitão Antônio Fernandes Andrade, incumbido de auxiliar a Câmara de Linhares. Esta estrada, há muito deixada ao abandono, e agora limpa e aberta, estava cheia de lama, pois chovera muito antes. Como a cavalgada foi feita toda a noite, archotes iluminavam o caminho, lançando no chão a sombra dançante da mata densa que o margeava.

Chegando a Linhares, ficou hospedado, como dissemos, na casa de Anselmo Calmon Nogueira da Gama, que fora preparada para recebê-lo.

Pela manhã, grupos de curiosos, brancos e índios botocudos mansos, aglomeravam-se frente á casa de hospedagem. D. Pedro saiu, falou com os índios através de um intérprete e desenhou alguns deles.

Às 7 e pouco da manhã, a comitiva, acompanhada por Rafael Pereira de Carvalho, Carlos Augusto Nogueira da Gama e muitos outros, subiu  o canal do atual rio Pequeno, em direção à lagoa Juparanã.

D. Pedro foi numa canoa escavada em um toro de vinhático, e, em outras, iam os linharenses, dando tiros, vivas e soltando fogos, esquentados pelo entusiasmo e alguns goles de “caninha”.

O Imperador achou que a lagoa parecia um mar de água doce; soube que era muito piscosa e cheia de jacarés; mas viu pouco os milhares de pássaros, abundantes nas florestas das margens, espantados pela barulheira que então se fazia.

As canoas deslizavam mansamente ao impulso das varas e remos. D. Pedro deu alguns tiros com uma espingarda que pegou emprestada, tirou uma “soneca” e levou boas picadas de mosquitos.

Desembarcaram, às 3 e 40 da tarde, na ilha de Santa Ana, que pertencia a Rafael Pereira de Carvalho e onde um almoço quase jantar esperava pelo Monarca. A mesa farta fora preparada sob um grande barracão construído pelo Carvalho, no cimo da ilha. Parte deste barracão fora assoalhado de madeira e ligado a uma rampa para atracação das canoas. D. Pedro não se sentou á mesa, preferiu fazer a refeição sentado sobre uma pedra no alto da ilha, de onde apreciava uma bela vista. Após a refeição, alguém lembrou-se de enterrar uma garrafa de champanhe vazia, como lembrança. “De tal garrafa, que continha uma cédula oferecida por D. Pedro e outras coisas, nunca mais se teve notícia”.

Ficaram na ilha quase duas horas e esta, que se chamou muito tempo ilha do Almoço, tem hoje o nome de ilha do Imperador.

Voltaram para Linhares chegando bem tarde da noite, bastante cansados, principalmente o Carlos Augusto, rouco de dar vivas. D. Pedro refere-se a ele como Carlos José, mas era mesmo Carlos Augusto, então Presidente da Câmara Municipal.

Na manhã do dia seguinte, dia 5, domingo, ouviu-se Missa na capela. O padre da Vila, João Antônio Calmon, estava doente e a missa foi oficiada por um frei Capuchinho, encarregado da catequese de tribos errantes do rio Doce. Carlos Augusto cantou durante a cerimônia; e lembrem-se de que ele estava rouco na noite anterior! Ao final, D. Pedro contribuiu com 300 mil réis para a compra de paramentos da capela e mais 500 mil réis para melhorar o cemitério ou fazer-se outro.

Visitou depois o quartel, coberto de telhas, e uma cadeia pouco segura. Em seguida, visitou a escola que tinha um professor substituto, o titular era José Maria Nogueira da Gama, sendo gratuito o trabalho. Não ficou muito bem impressionado com o conhecimento dos alunos e professores, o que, aliás, aconteceu também em Vitória. E, afinal, visitou a Casa da Câmara, pequena e com arquivo. Haviam remédios homeopáticos que eram receitados pelos dois Nogueira da Gama, possivelmente o Carlos e o Francisco de Paula, este também vereador na época. O Carlos cantou novamente (!!) e fez um discurso. Ali o Monarca encontrou-se de novo com alguns índios mansos de ambos os sexos que cantaram e dançaram.

Depois, mais tarde, chegando próximo da beira da alta barranca que margeia o rio e olhando o panorama escreveu: “nenhum mais belo!”.

No domingo ainda, à tardinha, D. Pedro subiu o rio Doce de canoa, para novo passeio até a barra da Juparanã-Mirim ou Lagoa Nova. Logo que a canoa ganhou a margem oposta do rio, o Imperador esboçou um desenho da Vila de Linhares.

Nas margens do rio acima, não viu nenhuma casa, a não ser a fazenda de Anselmo que se chamava Boa União, e a antiga fazenda Bom Jardim, era pura capoeira.

Voltou a Linhares à noitinha e em todas as casas havia violas e guitarras tocando. Mas D. Pedro recolheu-se cedo e voltou para Vitória segunda-feira através do rio Doce. Desceu o rio, em uma canoa e, na Barra, um navio o esperava para levá-lo a Vitória pelo mar.

 

Fonte: Panorama Histórico de Linhares, 1982
Autora: Maria Lúcia Grossi Zunti
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012 

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