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Canela-Verde - Por Jair Santos (Edição 2011)

Ilustração: Jair Santos - Do livro: Vila Velha, Onde começou o Estado do Espírito Santo, 2011

É, particularmente, o capixaba nascido em Vila Velha. Dizem que este cognome teve origem numa remota história que conta o seguinte: era comum os antigos habitantes do litoral brasileiro, viver da pesca e da caça, corno foram os primeiros colonos, que se amancebaram com as índias e tinham no mar sua principal fonte de comida, ficando a caça como alternativa alimentar.

A caça consistia na busca de animais de pequeno porte corno lebres, pacas, tatus, lagartos e aves em geral. Para persegui-las nas matas litorâneas, tinham de enfrentar marimbondos, besouros, vespas, formigas, mosquitos e, acima de tudo, grande variedade de espinhos, daí por que o homem foi obrigado a lançar mão de alguns objetos que se tornaram comuns no seu dia-a-dia, tais como, um facão na cintura para abrir picadas, uma vara resistente para bater o chão, quando o trecho da jornada era de vegetação baixa, em charco.

Contra os espinhos de certos arbustos e chavascais se protegiam usando um amarrado de ramagens nas pernas, além de um calçado qualquer. Esse tipo de proteção nas pernas vem de uma tradição indígena, e foi ela que deu  origem ao epíteto "canela verde". Só não se sabe por que tal apelido se fixou somente no indivíduo natural de Vila Velha, no Estado do Espírito Santo quando, na verdade, foi assim com todos aqueles que se estabeleceram ao longo do litoral do Brasil.

Sabemos que o termo canela-verde existe há muito tempo na terra dos capixabas, por isso, deve ter sido, no ser do mestiço que está essa alcunha, cuja juventude étnica mostrou ao mundo um rebento de cultura metade indígena, metade européia resultando num indivíduo de caracteres somáticos bem marcados, como pele de cor acobreada, cabelos ondulados, olhos mais abertos que os dos nativos, nariz bem moldado, hábitos diferentes, além de mais inteligente.

Nascia assim, o indivíduo matriz e novidade do Novo Mundo, o "Mestiço"

Não foi á toa que o Padre José de Anchieta, na capitania do Espírito Santo, usou esse primeiro mestiço no trabalho de aproximação e de conquista de índios cada vez mais distantes do litoral e o resultado revelou-se excelente; o grande número de índios catequizados, foi de tal ordem que, com eles fundou os núcleos de Nova Almeida na região norte, Guarapari e Reritiba ou Benevente, na região sul.

Vem, portanto dos primórdios da nossa colonização, a presença do mestiço na formação do brasileiro litorâneo que viveu da pesca, da caça e do extrativismo. Eram os caboclos, cujo número cresceu muito e nos acompanha para sempre. Sobre a presença desse mestiço conhecemos dois casos parecidos que tiveram grande repercussão na Europa do tempo dos descobrimentos.

Um deles, com Diogo Álvares Correia, o Caramurú que casou com a índia Paraguassú, filha do grande cacique Tupinambás, depois de ter sobrevivido de um naufrágio ocorrido no litoral norte da Bahia. Diogo Álvares teve filhos com Paraguassú e mais alguns com índias do mesmo grupo.

O outro com João Ramalho, que viveu na região sul do Brasil colonial e lá casou com Bartira e gozou de grande prestígio no seio da nação Carijós, do interior do atual Estado de São Paulo. Consta que João Ramalho teve filhos com muitas índias carijós porque elas tinham o hábito de procurá-lo em sua rede. Em vista da numerosa prole de mestiços ao seu redor, foi citado, também, como "patriarca dos mestiços". Esse caso escandalizou o Padre Manoel da Nóbrega, então chefe da Missão dos Jesuítas no Brasil [Leia "Náufragos Traficantes e Degredados" de Eduardo Bueno, Editora Objetiva].

Algum tempo mais tarde, a presença do mestiço na história do Brasil foi além da expectativa, após a nação brasileira conhecer a saga de um português que veio para a capital da Colônia (Salvador, na Bahia), trazido pelo Primeiro Governador Geral Tomé de Souza (1549). Sendo ele almoxarife da confiança do governador, recebeu, ao norte de Salvador, sesmarias e favores. Para garantir seu latifúndio, fez cultivo e criação de aves e animais, aliou-se aos Tupinambás e, tal como outros compatriotas, teve filhos mestiços que poucos anos depois se tornaram administradores do seu esparso patrimônio.

Mais tarde, garantiu sua descendência levando sua filha natural, que recebeu o nome de Isabel d'Ávila, a casar-se com Diogo Dias, filho de Diogo Álvares Correia, o lendário Caramurú. Desse casamento nasceu Francisco Dias, neto e herdeiro de Garcia d'Ávila**.

No primeiro quarto do século dezessete, a cidade de Salvador foi invadida pelos holandeses. Foi quando, o já poderoso Francisco Dias, por sua conta e risco, reuniu seus homens - índios e mestiços -, e lutou na expulsão dos invasores. Após esse ato de bravura a Coroa lusitana brindou-o com novas terras, honrarias e patentes militares para sua gente. A partir daí, cresceu ainda mais sua fortuna e poder. [fonte: Prof. Emílio da Silva Pessoa - Revista "Nossa História" pp. 56 a 59].

Ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX houve no Brasil o caldeamento com outras raças originárias da África, Europa e Ásia, quando amalgamou-se esse mestiço na figura do desmatador, do roceiro e, finalmente, na do "caboclo" que conhecemos hoje, um indivíduo simples, pacato, resistente e uma espécie de faz-tudo, tal como era o Canela Verde (mestiço capixaba) do início do século XX: um homem bom, paciente, forte e sempre disposto a ajudar em qualquer tarefa.

Em Vila Velha, no Estado do Espírito Santo, isto pode ser visto nas obras históricas como a Igrejinha do Rosário e o Convento da Penha, ainda de pé desde o século XVI, ou seja, há 476 anos na plenitude do interminável uso!

A vida dessa gente era desfrutada no seio de uma sociedade onde todos se conheciam, onde grande parte dela tinha grau de parentesco próximo, resultado da tradição indígena que admitia a união entre indivíduos do mesmo grupo ou da mesma tribo.

Na cultura desses capixabas simples, modestos e mansos, a alcunha Canela Verde chegou a ser recebida como um elogio, um carinho ou um título que os destacava entre os demais, pois nutriam a certeza de trazer no sangue a descendência de gente diferente que tanto fez pelo engrandecimento de tudo e de todos.

Na província do Espírito Santo, eram os Capixabas Canelas Verdes ou mestiços homens descendentes de uma raça que tudo suportou na obscuridade do longo período de abandono vivido depois que o primeiro donatário Vasco Fernandes Coutinho, mudou a sede da capitania da seminal vila para a Ilha de Santo Antônio (1551), dos sistemáticos ataques dos índios em guerra contra o invasor que os maltratava. Esse período de abandono durou pouco mais de três séculos, quando Vila Velha se transformou numa vila de pescadores, catadores e agricultores e trabalhadores, de cujo esforço, os frutos são vistos através de obras como a igrejinha do Rosário e do Convento da Penha, cuja argamassa foi molhada com o suor desses habitantes que se multiplicaram na endogamia. Uma realidade que chegou até o alvorecer do século XX para que hoje, pudéssemos testemunhar o milagre dessa multiplicação herdada desde a cultura tribal dos seus ancestrais.

Consta também, que o termo Canela Verde, teria sido uma invenção dos insulanos (da ilha de Vitória) referida aos seus conterrâneos continentais (de Vila Velha), de onde vinham todas as manhãs em seus barcos, os tais caboclos mestiços para vender o produto do seu trabalho... Em Vitória, esta era uma cena diária do abastecimento do "Mercado da Avenida Capixaba," uma cena diária que aumentou muito nos primeiros decênios do século XX e foi nesses homens que se fixou o apelido canela verde...

Quanto a isso, diz o estudioso, Edward Ataíde d'Alcântara: - por ser esse trabalhador vila-velhense, um homem rude, paciente e humilde, entende ele que, o apelido inventado pelos ilhéus, teve a real intenção de diminuir ou humilhar as pessoas simples que iam ou vinham da vila ou da periferia da capital. Mais adiante, Edward diz não entender esse preconceito dos conterrâneos da capital porque "capixaba" é o mesmo que "caipira", um trabalhador pobre da roça de milho ou da mandioca; e conclui citando outros exemplos.

Em razão da permanente falta de explicação sobre essa história, somos ainda hoje, obrigados a ouvir versões que nada têm a ver com a origem do apelido "canela verde", como exemplo da primeira, a mais ouvida, diz o seguinte: quando o vila-velhense ia pescar camarão na Prainha, ao sair da água ficava com as pernas cheias de algas ou limo. Ao secarem, as algas davam coloração esverdeada às pernas. Esta versão é narrada no livro "Vila Velha Nosso Município", pág. 6o, dos autores Lea Erigida Rocha de Alvarenga Rosa, Luiz Guilherme Santos Neves e Renato José Costa Pacheco (in memorian).

Desde criança, este autor, criado nas margens da Prainha, também exerceu essa atividade um cem número de vezes e pode afirmar que não era bem assim! Basta ver que, existem duas espécies de algas marinhas que a marola enchente deixava na orla da praia. Um desses sargaços é de cor marrom escura, de ramagem pesada e, pelas diferenças de cor e peso, nada tem a ver com a história. A outra alga mais fina, de coloração verde, leve e clara que, por ser escorregadia, só deixava nas pernas diminuto fragmento, porque a maior parte descia perna abaixo ao sair da água. Trata-se, portanto, de tese pouco consistente, que não justifica, embora seja a mais conhecida.

A segunda versão diz que foi porque os primeiros portugueses ao desembarcarem na Prainha, em 1535, traziam perneiras verdes como complemento da indumentária. Algumas pessoas, de quem ouvi essa vertente não souberam explicar e outras, a completaram dizendo; - a esses de perneiras verdes, os índios locais chamavam "emboabas"! Além de errada, não significa nada...

A terceira versão conta o seguinte: em tempos remotos, os homens do lugar (Vila Velha) passaram a usar um borzeguim, ou perneira com cano tecido em coloração esverdeada que defendia o usuário dos ataques de mosquitos. Aqui cabe a pergunta: - Por que só os homens usariam perneiras? Se o problema eram os mosquitos, por que as mulheres e crianças não a usaram também?

A quarta versão conta que os antigos habitantes de Vila Velha passavam parte do dia à cata de caranguejos e berbigão. Ao saírem dos mangais com as pernas sujas de lama e, por não terem o hábito de lavá-las, assim que secava a lama adquiria uma cor esverdeada. Aqui cabe, novamente, outra pergunta: - Quer dizer que, só a lama dos mangues de Vila Velha mudava de cor? E a lama dos outros lugares, não?

Bem parecido, também, foi o termo Carioca: diz-se referindo-se aos naturais do Rio de Janeiro, designando-se o mestiço de europeu, branco e índio. (Esta etmologia é contestada por Edelweiss. Fonte: "Vocabulário Tupi-Guarani-Português", de Silveira Bueno, à página 96).

Fonte: Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo, 2ª edição 2011
Autor: Jair Santos
Compilação: Walter de Aguiar Filho

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