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Índios x brancos – Carnificina

Tela da artista Morgana, ilustrando a presença do índio, quando da chegada de Vasco Fernandes Coutinho na Enseada da Prainha.

No contato inicial entre os dois povos, à fase de escambo de utilidades seguiu-se a da caça ao silvícola, para ser utilizado nos trabalhos de lavoura. No Espírito Santo, onde as florestas espessas invadiam as praias e o homem que a habitava era particularmente feroz, o sistema de aliciamento de braços seguiu outro rumo. O padre Manuel da Nóbrega resumiu em poucas palavras o ardil “que foy ensinarem os christãos ao gentio a furtaren-se a sy mesmos e venderen-se por escravos”.(30) A vindita não se fez esperar. Aimorés, goitacás e tupiniquins, no desespero da perseguição, aliaram-se para aniquilar o estrangeiro que os espoliava. Brito Freire nos legou um pequeno trecho que descreve os momentos fatais que abalaram o senhorio até os alicerces: “Pela grande soltura com que vivião lá os Nossos, tratando aos Barbaros, como se forão mais barbaros do que elles, vierão elles a parecer mais Portugueses que nós. E encobrindo o odio costumado a Nação dominante, se com a vontade occulta nos offendião, com a obediencia nos obrigavão.

Até que exasperou de todo os Indios, a intoleravel servidão. E mais gemendo, do que fallando, cançados, ou receosos de se queixar, por verem as queixas sem remedio, encobrirão-nas com silencio, em quanto juntarão das visinhas montanhas, com tão raivosa resolução, tão immensas turbas, que descendo sobre os Nossos, lhes destruirão as fazendas, & matarão entre outros, ao mesmo Dom Jorge.(31)

No posto, & na desgraça, lhe succedeo Dom Simão de Castel-Branco; perdendo com elle a vida, em hum assalto semelhante, a mayor parte da sua gente, por despresar tanto, tão baixos combatentes, que antes de os cometer, suppunha que os tinha vencido: parecendolhe não hia fazer guerra, mas dar castigo”.(32)

Os que não morreram em combate – restrita minoria – fugiram aterrorizados para as capitanias vizinhas ou pereceram transviados na floresta.

Os silvícolas reduziram o trabalho de mais de um decênio a pouco mais de uma tapera.

 

NOTAS

(30) - NÓBREGA, Cartas, III, 79.

(31) - CAPISTRANO DE ABREU asseverou nos Prolegômenos do Livro Segundo da História do Brasil, de frei Vicente do Salvador, que “só nesta segunda fase (depois dos socorros trazidos por Fernão de Sá em 1557) foram mortos D. Jorge de Menezes e D. Simão de Castelo Branco, segundo se deduz da admirável carta de Manuel da Nóbrega a Tomé de Sousa”.

Não chegamos à mesma conclusão, estudando a missiva (Cartas, III, 70 ss.). Nela, Nóbrega demora-se em recordar fatos ocorridos antes, durante e depois do governo de Tomé de Sousa. O trecho em que se refere à capitania do Espírito Santo parece incluir-se quase todo entre os sucessos anteriores à vinda do primeiro governador. Aliás, no parágrafo seguinte, o maioral dos jesuítas fala dos males que afligiram a Bahia e que culminaram na morte do seu donatário – o infeliz Francisco Pereira Coutinho. E, como se sabe, este foi sacrificado pelos silvícolas em 1547. Só dois anos depois Tomé de Sousa aportaria em Todos os Santos.

(32) - BRITO FREIRE, Nova Lusitânia, I, 92.

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, maio/2017

Vasco Fernandes Coutinho

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