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O Caboclo Bernardo (Parte II) - Por Rubem Braga (1949)

Contei em outra crônica o duro e teimoso heroísmo, com que o caboclo Bernardo conseguiu levar a salvação aos náufragos do cruzador Imperial Marinheiro, junto à barra do rio Doce, em 7 de setembro de 1887. O livro escrito a respeito pelo Sr. Norbertino Bahiense, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, vem, com uma grande cópia de documentação, fazer justiça a esse herói esquecido de minha terra.

Nem a Marinha, nem o Governo Imperial foram insensíveis, na época, ao valor do seu feito. O caboclo Bernardo foi trazido ao Rio e aqui recebeu, juntamente com o mestre João Roque da Silva e o cabo Manuel Ferreira da Silva, os dois homens da tripulação que mais energia e coragem mostraram em salvar os outros, a Medalha Humanitária de 1ª Classe. O caboclo Bernardo foi levado ao Paço Imperial pelo capitão-tenente Artur Índio do Brasil (que, ambos, chegaram ao almirantado), e chamado pelo conde d’Eu recebeu das mãos da princesa imperial o prêmio de seu heroísmo.

Contou-me um velho habitante do rio Doce que na Corte perguntaram ao caboclo o que ele queria mais para si. O caboclo Bernardo disse que para si não queria nada, mas pediu a nomeação de seu velho pai, o caboclo Manduca, para o posto vago de prático da barra do rio Doce; e depois de todas as honras que recebeu no Rio e em Vitória, voltou para o remo da catraia onde ajudava o seu velho. Rejeitou um bom posto na Capitania dos Portos, em Vitória, pois não queria sair de Regência.

Alguém o viu ali aos 47 anos de idade “descalço, andrajoso e esquecido”. A bela medalha de ouro mandada cunhar especialmente para celebrar seu feito, ele, com toda certeza, a vendeu.

Não creio – nem o velho Meireles, que o conheceu bem – que o caboclo Bernardo fosse infeliz por andar “descalço, andrajoso, e esquecido”. Era casado, e vivia a sua vida, “muito respeitado aqui, pois era um sujeito mesmo muito bom e muito direito”.

Aos 55 anos de idade foi assassinado a tiros de garrucha por um outro caboclo chamado Lionel, que estava cheio de cachaça. Lionel, que cumpriu pena até 1920, quando foi indultado, e só morreu em 1946, nunca explicou seu crime, de que dizia estar muito arrependido, senão pela cachaça...

E o caboclo Bernardo ficou quase completamente esquecido durante muitos anos. Só agora sua memória começa a ser lembrada; seu nome foi dado a uma pequena rua de Vitória (a Associação Comercial, com uma tola e impressionante mesquinhez, opôs-se à proposta do Rotary Clube para que esse nome ficasse no lugar do inexpressivo Rua do Comércio) e a uma rua central de Linhares.

Por que não dar o nome de caboclo Bernardo à próspera Povoação, que não tem outro nome, e é tão vizinha de Regência? Esperamos que um dia também se volte a lembrar dele a Marinha de Guerra, que na sua rude figura encontrará um bom símbolo para o pescador, o embarcadiço, o caboclo de praia que, na hora má, é o amigo certo, o irmão do marinheiro.

 

Fevereiro, 1949.

 

Fonte: Crônicas do Espírito Santo, 1984
Autor: Rubem Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2012
Obs.: Este livro foi doado à Casa da Memória de Vila Velha em abril de 1985 por Jonas Reis

 

 

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O Caboclo Bernardo (Parte I) - Por Rubem Braga (1949)

 


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