Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O Caboclo Bernardo (Parte II) - Por Rubem Braga (1949)

Caboclo Bernardo

Contei em outra crônica o duro e teimoso heroísmo, com que o caboclo Bernardo conseguiu levar a salvação aos náufragos do cruzador Imperial Marinheiro, junto à barra do rio Doce, em 7 de setembro de 1887. O livro escrito a respeito pelo Sr. Norbertino Bahiense, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, vem, com uma grande cópia de documentação, fazer justiça a esse herói esquecido de minha terra.

Nem a Marinha, nem o Governo Imperial foram insensíveis, na época, ao valor do seu feito. O caboclo Bernardo foi trazido ao Rio e aqui recebeu, juntamente com o mestre João Roque da Silva e o cabo Manuel Ferreira da Silva, os dois homens da tripulação que mais energia e coragem mostraram em salvar os outros, a Medalha Humanitária de 1ª Classe. O caboclo Bernardo foi levado ao Paço Imperial pelo capitão-tenente Artur Índio do Brasil (que, ambos, chegaram ao almirantado), e chamado pelo conde d’Eu recebeu das mãos da princesa imperial o prêmio de seu heroísmo.

Contou-me um velho habitante do rio Doce que na Corte perguntaram ao caboclo o que ele queria mais para si. O caboclo Bernardo disse que para si não queria nada, mas pediu a nomeação de seu velho pai, o caboclo Manduca, para o posto vago de prático da barra do rio Doce; e depois de todas as honras que recebeu no Rio e em Vitória, voltou para o remo da catraia onde ajudava o seu velho. Rejeitou um bom posto na Capitania dos Portos, em Vitória, pois não queria sair de Regência.

Alguém o viu ali aos 47 anos de idade “descalço, andrajoso e esquecido”. A bela medalha de ouro mandada cunhar especialmente para celebrar seu feito, ele, com toda certeza, a vendeu.

Não creio – nem o velho Meireles, que o conheceu bem – que o caboclo Bernardo fosse infeliz por andar “descalço, andrajoso, e esquecido”. Era casado, e vivia a sua vida, “muito respeitado aqui, pois era um sujeito mesmo muito bom e muito direito”.

Aos 55 anos de idade foi assassinado a tiros de garrucha por um outro caboclo chamado Lionel, que estava cheio de cachaça. Lionel, que cumpriu pena até 1920, quando foi indultado, e só morreu em 1946, nunca explicou seu crime, de que dizia estar muito arrependido, senão pela cachaça...

E o caboclo Bernardo ficou quase completamente esquecido durante muitos anos. Só agora sua memória começa a ser lembrada; seu nome foi dado a uma pequena rua de Vitória (a Associação Comercial, com uma tola e impressionante mesquinhez, opôs-se à proposta do Rotary Clube para que esse nome ficasse no lugar do inexpressivo Rua do Comércio) e a uma rua central de Linhares.

Por que não dar o nome de caboclo Bernardo à próspera Povoação, que não tem outro nome, e é tão vizinha de Regência? Esperamos que um dia também se volte a lembrar dele a Marinha de Guerra, que na sua rude figura encontrará um bom símbolo para o pescador, o embarcadiço, o caboclo de praia que, na hora má, é o amigo certo, o irmão do marinheiro.

 

Fevereiro, 1949.

 

Fonte: Crônicas do Espírito Santo, 1984
Autor: Rubem Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2012
Obs.: Este livro foi doado à Casa da Memória de Vila Velha em abril de 1985 por Jonas Reis

 

Links Relacionados:

O Caboclo Bernardo (Parte I) - Por Rubem Braga (1949)



GALERIA:

📷
📷


Aventura

São Torquato

São Torquato

O crescimento de São Torquato deve-se à construção da ponte Florentino Avidos ou Cinco Pontes. Uma das suas extremidades fica em São Torquato. A ponte facilitou a ligação com Vitória, pela Ilha do Príncipe.

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Na rota dos tesouros

Navios afundados e riquezas soterradas despertam interesse de aventureiros no ES

Ver Artigo
O Caboclo Bernardo (Parte I) - Por Rubem Braga (1949)

Parece que não tinha nenhum sangue europeu; era apenas um índio, com seu nome cristão de Bernardo José dos Santos

Ver Artigo
O Caboclo Bernardo (Parte II) - Por Rubem Braga (1949)

Aos 55 anos de idade foi assassinado a tiros de garrucha por um outro caboclo chamado Lionel, que estava cheio de cachaça

Ver Artigo
Um amor que vai durar (e durou) para sempre

Fugindo da ditadura Militar, em 64, ele foi obrigado a permanecer na cidade porque o dinheiro acabou antes da hora

Ver Artigo
Descida do Rio Jucu - 2007

No ano em que o mundo desperta para os problemas do aquecimento global, a Descida Ecológica do Rio Jucu, em sua 18º edição, mais uma vez chama nossa atenção

Ver Artigo