Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O Caboclo Bernardo (Parte I) - Por Rubem Braga (1949)

Caboclo Bernardo

Parece que não tinha nenhum sangue europeu; era apenas um índio, com seu nome cristão de Bernardo José dos Santos. Era alto, de espáduas largas, a cara grande. Vejo numa gravura da época sua basta cabeleira negra, e um bigode ralo que lhe cai pelo canto da boca, no feitio mongol. A cara é enérgica e suave, e as sobrancelhas finas se unem no centro, sob uma ruga vertical na testa; suas extremidades descem, numa curva em que se lê obstinação. O caboclo Bernardo está com 28 de idade no dia 7 de setembro de 1887. É nascido ali mesmo onde vive, no povoado de Regência Augusta, antiga Barra do Rio Doce – e como seu pai, o velho Manduca, conhece o rio, o mar, e a mata. Foi naquele 07 de setembro, à uma e quarenta da madrugada, sob um raivoso sudoeste e grande escuridão, que o cruzador Imperial Marinheiro, um dos mais novos barcos da Marinha de Guerra Brasileira (deslocamento, 726 toneladas; boca, 8 m 24; calado 3m 40; máquina 150 cavalos; marcha horária 11 milhas; armamento, 7 canhões de 32 e 4 metralhadoras, com 142 homens a bordo), chocou-se contra o pontal sul da Barra do Rio Doce, a 120 metros da costa. Foi arriado um escaler com 12 homens; o mar arrebentou o escaler, mas 12 homens chegaram às 2 da madrugada à cabana do patrão-mor da barra para pedir socorro. No escuro, e sem nenhuma embarcação diante do mar furioso, os homens ficaram na praia enquanto o mar esfrangalhava o cruzador. Quando veio a luz do dia os náufragos estavam reunidos nas partes mais altas, ainda não submersas, do barco, e os tubarões rondavam entre as ondas encapeladas.

O caboclo Bernardo jogou-se ao mar tentando levar até o cruzador um cabo de espia. Luta contra as ondas, mas é jogado na praia. Tenta ainda uma vez, e volta novamente, depois de uma luta terrível contra a força das águas. Sua mãe, uma cabocla velha, pede-lhe para não insistir, mas ele se lança ainda ao mar. Parece que da primeira vez teria levado o cabo, excessivamente pesado, amarrado à cintura; de outra o amarrara à sua rede, com tresmalhos de cortiça, ou a uma linha de pescar, que puxaria pelos dentes. O fato é que luta em vão contra as águas açoitadas pelo vento; e regressa à praia exausto. Os náufragos olham tudo aquilo com angústia. O caboclo Bernardo se desvencilha dos braços dos que querem detê-lo e entra no mar pela quarta vez. Nada com desespero em direção ao navio, mas não avança; pouco depois é jogado na areia. Levanta-se – e volta. Só então, pela quinta vez, consegue chegar ao navio com o cabo salvador. Forma-se um cabo de vai e vem, e os marinheiros saltam de bordo agarrados a ele para chegar em terra. Muitos o conseguem. Outros, enfraquecidos pelas horas de tormenta, não resistem e morrem. O caboclo Bernardo joga então ao mar a única embarcação que resta, uma pequena chalana. Pede dois marinheiros para ajudá-lo, e ligando essa chalana ao cabo leva os náufragos para a terra, de dois a dois. De vez em quando a chalana vira; o caboclo Bernardo, com seus dois companheiros, cai na água para desvirar a embarcação e segurar os náufragos. Trabalham assim durante horas, até que o mar despedaça de uma vez a chalana. Havia ainda 13 homens a bordo, que afinal se salvaram em uma jangada improvisada, agarrando-se ao cabo. Graças ao brutal heroísmo do caboclo Bernardo foram salvos 128 homens em um total de 142.

Estas notas eu as extraio do livro do Sr. Norbertino Bahiense O Caboclo Bernardo e o Naufrágio do Imperial Marinheiro, que acaba de ser publicado em Vitória; e o que não está no livro me contou o velho Meireles, numa destas manhãs de chuva e sudoeste, ali mesmo na Barra, onde tudo assistiu. Deixo para outra crônica o resto da história desse caboclo Bernardo, tão rude e tão bom.

 

Fevereiro, 1949

 

Fonte: Crônicas do Espírito Santo, 1984
Autor: Rubem Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2012
Obs.: Este livro foi doado à Casa da Memória de Vila Velha em abril de 1985 por Jonas Reis

 

 

Links Relacionados:

 
O Caboclo Bernardo (Parte II) - Por Rubem Braga (1949)

 


Aventura

Barra do Rio Doce - Por Rubem Braga (1949)

Barra do Rio Doce - Por Rubem Braga (1949)

O homem de binóculo focalizava a bandeirinha que se agitava lá em terra lá em terra, no pontal sul, perto do farol

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Na rota dos tesouros

Navios afundados e riquezas soterradas despertam interesse de aventureiros no ES

Ver Artigo
O Caboclo Bernardo (Parte I) - Por Rubem Braga (1949)

Parece que não tinha nenhum sangue europeu; era apenas um índio, com seu nome cristão de Bernardo José dos Santos

Ver Artigo
O Caboclo Bernardo (Parte II) - Por Rubem Braga (1949)

Aos 55 anos de idade foi assassinado a tiros de garrucha por um outro caboclo chamado Lionel, que estava cheio de cachaça

Ver Artigo
Um amor que vai durar (e durou) para sempre

Fugindo da ditadura Militar, em 64, ele foi obrigado a permanecer na cidade porque o dinheiro acabou antes da hora

Ver Artigo
Descida do Rio Jucu - 2007

No ano em que o mundo desperta para os problemas do aquecimento global, a Descida Ecológica do Rio Jucu, em sua 18º edição, mais uma vez chama nossa atenção

Ver Artigo