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O reinado do café - O café desfaz um marasmo de 300 anos

A cultura do café acelerou a ocupação do território capixaba - Foto: UFES

O Espírito Santo começou a desenvolver-se no, século XIX graças a um elemento de fora do Estado, passando pelo Vale do Paraíba fluminense. Esse elemento foi:

A — D. João VI

B — O imigrante europeu

C — O café

D — O trem

E — D. Pedro II

Fácil, não? Todos os historiadores concordam: quem promoveu o desenvolvimento do Espírito Santo foi o café, com a colaboração dos imigrantes e o auxilio dos trens de ferro. Quanto a D. João e D. Pedro, noves fora, nada: só aparecem na história capixaba como meros figurantes.

O café foi a primeira grande mercadoria produzida maciçamente no Espírito Santo. Antes disso, só o pau-brasil, o açúcar, a farinha de mandioca e algum ouro, mas sem o volume e a cotação do grãozinho que, finalmente, tirou a província capixaba do marasmo. Um marasmo de 300 anos.

Foi o café, segundo os historiadores, que viabilizou a imigração européia, implantou o trabalho livre em lugar da escravidão, ocupou efetivamente o solo, promoveu a urbanização e financiou a infra-estrutura viária que daria origem aos atuais corredores de exportação. Com todo esse papel de herói, o gigante café já foi muito estudado e analisado. Mas há detalhes que ainda permanecem desconhecidos.

Origens

Até hoje é um mistério onde e quando o café começou a ser cultivado no Espírito Santo, Em geral, os historiadores afirmam que o café subiu do Sul para o Norte. Por essa versão, o território capixaba teria sido alcançado quando não havia espaço em território fluminense. Mas a trajetória dessa penetração nunca chegou a ser exatamente levantada.

Além disso, há quem afirme que o café estreou no vale do rio Doce. Antônio Ataíde, um importante pesquisador das raízes da cafeicultura capixaba, escreveu que o café foi cultivado pela primeira vez em 1800, em Linhares. Gabriel Bittencourt, autor de uma copiosa obra em torno da cafeicultura, reconhece que em 1811 já existia uma produção de café em pequena escala na província.

José Teixeira de Oliveira, que escreveu a mais citada história do Espírito Santo, acentua que em 1812 as lavouras do vale do rio Doce já produziam café para exportação (para o Rio). Francisco Alberto Rubim, que governou a província entre 1812 e 1819, recomendou o plantio de café em Vitória e no litoral.

Já Haroldo Correa Rocha e Maria da Penha Cossetti, que fizeram um denso estudo sobre a importância do café como dinamizador da economia capixaba, dão o ano de 1840 como o marco inicial dessa lavoura. E há estudiosos que só reconhecem a cafeicultura como algo importante no Estado a partir de 1850. O relatório de 1852, do presidente da Província, Nascentes Azambuja, mostra que naquela época, de fato, o café empregava 3.939 pessoas, contra 2.199 no açúcar e 2.202 na farinha de mandioca.

Queda do açúcar

Seja qual for o ano em que apareceu no território capixaba, o café levou algum tempo para agitar a economia local. Sua expansão está associada à decadência do açúcar. Em 1820, por exemplo, havia 60 engenhos de açúcar no Espírito Santo. Os outros produtos da província eram a madeira, a farinha de mandioca, o algodão, o milho, o feijão e o arroz.

Quando o café começou a deslanchar, o açúcar despencou. Em 1858, a produção de café no Espírito Santo foi de 151,2 mil arrobas, contra 46,2 mil arrobas de açúcar. Em 1861, estes números eram 223,8 mil arrobas de café e 21,8 mil arrobas de açúcar.

A lavoura do café teve grande impacto no Espírito Santo, em meados do século passado, não tanto pelo volume da produção, que era pequeno, mas em virtude da histórica debilidade da economia local. Em 1851, o Espírito Santo respondia por apenas 1% da produção dos quatro principais produtores. O maior era o Rio de Janeiro, com 56%. Longe vinham São Paulo (20%) e Minas (20%). Em 1871, a participação do ES no bolo da produção nacional chegava a 4,7%.

Apesar desta pequena fatia, o café funcionou como uma extraordinária alavanca da economia do Espírito Santo. Um dos sinais do progresso era o aumento da população. De 35 mil habitantes em 1827, a população capixaba cresceu para 49 mil em 1856, chegando a 82 mil em 1872.

Este crescimento populacional devia-se ao café, que atraía migrantes de todos os lados. Do Oeste vinham os mineiros. Do Sul, os fluminenses e em menor quantidade dos paulistas. Do Norte, os baianos. Por fim, do Leste, desembarcavam em Vitória os imigrantes vindos da Europa.

De Norte a Sul

Embora tenha sido cultivado no vale do rio Doce no começo do século XIX, o café demorou a se implantar na região Norte do Estado. Por vários motivos. Primeiro, a proximidade geográfica com o Rio de janeiro fez do Sul capixaba a primeira grande zona de produção do Espírito Santo. Segundo o próprio rio Doce, como um obstáculo natural, retardou a colonização do interior do Norte capixaba. Por fim, foi mais ou menos ali, pouco acima do rio Doce, que o café cultivado na época encontrou seu limite ecológico. A planta não gostava de tanto calor.

Com os imigrantes europeus sendo despejados nas grotas mais ignotas, ao Sul do rio Doce, o café realizou alguns prodígios, como o de fixar esses pobres colonos, enraizar a cafeicultura nas montanhas e, no século XX, com seus descendentes, iniciar o desenvolvimento econômico do Norte capixaba, onde o único núcleo urbano mais desenvolvido era São Mateus, numa região de terras arenosas, mais propícias ao cultivo da mandioca.

No fim do século passado, São Mateus era tão extenso que, em sua região Oeste, havia matas densas com terras boas para a cafeicultura. Aí, em 1888, foi enfiado um reduzido número de italianos, que mais tarde fundariam Nova Venécia. Nos primeiros anos, a viagem de ida e volta entre a colônia e São Mateus durava onze a doze dias.

E havia núcleos mais longínquos. Mais a Oeste de São Mateus, ainda mais longe de tudo, reservou-se uma porção de terra para duas centenas de poloneses. Com café e trabalho, no lugar nasceu Águia Branca. Entre meados do século passado e meados da atual, a cafeicultura dominou a vida econômica capixaba, representando até 70 por cento da receita pública e mais de 90 por cento das exportações. Foram décadas seguidas da mais absoluta monocultura, da qual o Espírito Santo só começou a sentir os perigos na década de 1940.

Café Capitania

Brando, suave, leve, era produzido no litoral, à sombra das árvores

O Espírito Santo é reconhecido como um produtor de cafés rústicos, de qualidade inferior. Esta tendência tornou-se praticamente uma especialidade nas últimas décadas, com o cultivo da variedade conillon, de origem africana. No entanto, nem sempre foi assim. Houve uma época, entre o fim do século passado e meados do atual, em que a cafeicultura capixaba se destacou como produtora de um tipo especial, denominado capitania. Era um café famoso pelo sabor brando, qualidade que se atribuía à característica de cultivo, à sombra das árvores. Assim, os cafeeiros cresciam protegidos do rigor do Sol e dos efeitos do vento nordeste predominante na região produtora — o litoral.

Com a evolução da cafeicultura no Espírito Santo, as lavouras ocuparam as montanhas e as planícies, onde os produtores não conseguiam "tirar" o capitania, que só dava na zona litorânea. O sombreamento dos cafeeiros, recomendado por publicações técnicas oficiais, nunca chegou a ter muitos adeptos entre os cafeicultores. E o café capitania ficou na história como um momento brilhante da lavoura do Espírito Santo.

O grão que valia ouro

Participação do café na exportação e na receita pública do Espírito Santo

Ano         Part/na exportação%          Part/receita%

1892             97,7                                   52,8

1902             95,4                                   73,6

1912             91,1                                   66,0

1922             92,2                                   76,6

1932             95,3                                   70,6

 

Fonte: O reinado do café, A Gazeta 31/08/1992
Pesquisa e textos: Geraldo Hasse, Linda Kogure e Abmir Aljeus
Fotos: Valter Monteiro e Tadeu Bianconi
Concepção gráfica: Sebastião Vargas
Ilustração: Pater
Edição: Orlando Eller
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2016

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