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O reinado do café - Os negros eram mais numerosos no Sul do ES

A região de Itapemirim, no Sul do Estado, concentrou o maior número de escravos no Espírito Santo. Segundo Vilma Paraíso Ferreira de Almada, em seu livro Escravismo e Transição — O Espírito Santo (1850-1888) em 1872, a Província contava com 22.552 escravos, subdivididos em 6.619, 30,7% na Capital;  11.722, 52%, em ltapemirim, 12,6% em São Mateus e 4,8% em Reis Magos (Nova Almeida). Já em 1876, o total era de 20.806, sendo que 28% na Capital, 57% em Itapemirim, 12% em São Mateus e 3% em Reis Magos.

Segundo a autora, a grande massa da população escrava era de lavradores, representando 72,4% do total de 17.863 escravos ativos em 1872. Entre as atividades que pesquisou para a sua tese de mestrado, Vilma constatou que 82,9% dos escravos de São Mateus eram lavradores. Nesta atividade profissional, ltapemirim contava com 77,2%, Vitória com 59,7% e Reis Magos, com 40,3% de lavradores escravos.

Café

A expansão do café, que foi substituindo a produção de cana-de-açúcar, está diretamente ligada à expansão demográfica da Província, de 1856 a 1872. A autora analisa que a população "livre" e escrava praticamente foi duplicada, na região de Itapemirim, por exemplo, pela expansão dos cafezais. Ela compara que Reis Magos e São Mateus, onde, apesar de tentativas iniciais, não se implantou o cultivo do café, a população não teve um crescimento significativo.

Quanto ao crescimento da população escrava, Vilma observa que, em 1856, as zonas cafeeiras da Capital e de Itapemirim apresentavam-se com um número de escravos equivalentes, 4.923 e 4.381, respectivamente. O mesmo fato não ocorreu em 1872, quando a população escrava de Itapemirim cresceu para 11.722, com incremento de 168%. Naquele ano, Vitória apresentava um crescimento percentual de 40% apenas.

São Mateus, tradicionalmente dedicada à produção e exportação da farinha de mandioca, contava em 1856, com 18% dos escravos da Província. Esta porcentagem, no entanto, caiu para 12% em 1872. "Não incentivada pelo surto cafeeiro, a sua economia se manteve estacionária, com o mesmo número de escravos — 2.213, em 1856, para 2.181, em 1872.

Segundo o censo oficial de 1872, o Brasil possuía 1.510.806 escravos, numa proporção de 1 escravo por 5,5 habitantes. Nas principais províncias cafeeiras da época, Vilma concluiu que a escravidão no Espírito Santo apresentava grande significação para a economia. Enquanto o Rio de Janeiro apresentava 1 escravo por 1,6 habitantes, o Espírito Santo tinha 1 escravo por 2,6 habitantes.

Açorianos chegaram primeiro

Sem contar os portugueses, o elemento colonizador e os africanos, utilizados como mão-de-obra escrava, a primeira leva de imigrantes a entrar no Espírito Santo foram cinqüenta casais açorianos, vindos em 1813. Eles, que eram mestiços de portugueses com nativos da Ilha dos Açores, região do Atlântico Norte, se instalaram às margens do rio Santo Agostinho, a 18 quilômetros de Vitória, num lugar denominado Viana. O local recebeu este nome por homenagem ao desembargador Paulo Fernandes Viana, intendente-geral de Polícia, que tomara a iniciativa da imigração com o objetivo de "aumentar a povoação branca deste país".

A insurreição dos enganados

A Insurreição de Queimados não foi a única rebelião dos escravos no Espírito Santo. Segundo Vilma Paraíso Ferreira de Almada, em seu livro Escravismo e Transição, "o escravo jamais ficou insensível ao que se discutia à sua volta, procurando, pelo contrário, tirar sempre proveito dos acontecimentos que, temporariamente, pelo menos, enfraqueciam o poder dos brancos sobre eles". Já em 1827, ViIma cita que mais de 90 escravos, de um quilombo em São Mateus, ameaçaram se unir aos das fazendas e invadir a vila. Só que não conseguiram pelas "enérgicas providências" do governo da Província.

Outro fato semelhante ocorreu na fase da assinatura da lei de 7 de novembro de 1831, que declarava a liberdade de todos os escravos que entrassem no Brasil a partir daquela data. Houve uma insurreição na Vila de Itapemirim. A repercussão das discussões da abolição da escravatura injetava ânimo nos escravos.

Queimados

Sem dúvida, na Serra, o único movimento de insubordinação dos negros foi a Insurreição de Queimados, em 1849. Havia um povoado que crescia à margem esquerda do rio Santa Maria da Vitória com o nome de São José do Queimado. O frei Gregório de Bene era o vigário. Uma igreja deveria ser construída, mas não havia recursos. Rapidamente, se espalhou a notícia de que as escravos que ajudassem na construção seriam libertados no dia da inauguração.

Os negros prontamente iniciaram o trabalho. Erguiam a igreja aos domingos, feriados e nas horas de folga. Foi assim o ano todo e a igreja, concluída. Comentava-se que durante a missa seria lida a declaração de liberdade dos escravos que trabalharam na construção. O líder dos escravos, Elisiário, intimava os fazendeiros a assinarem um documento de liberdade aos negros.

Em 18 de março de 1849, véspera da inauguração, mais de 200 negros estavam reunidos em Queimados. No dia da inauguração, quando frei Gregório percebeu que os negros esperavam o cumprimento da promessa de libertação, trancou-se na igreja.

Elisiário incentivou os negros para que fossem às fazendas pedir liberdade aos seus donos. Tudo foi negado, naturalmente. O padre voltou atrás com sua promessa e retirou-se da paróquia. Uma tropa de soldadas foi enviada de Vitória. Em dois dias, os escravos rebeldes foram dominados pelos militares. Quarenta foram presos. Dois deles conseguiram fugir da prisão, mas morreram nas matas. Trinta e seis foram julgados e condenados. Outros sofreram penas de açoites e apenas seis absolvidos. Dos cinco que deveriam morrer na forca, apenas dois foram condenados: João da Viúva Monteiro, executado em Queimados e Chico Prego, enforcado em frente à Igreja Matriz da Serra.

"Na capital, as ruas encheram-se de escravos que abandonavam as fazendas... As festas duraram 15 dias, havendo Te Deum no Convento de São Francisco e na Igreja do Rosário", comenta a historiadora Maria Stella de Novaes, em seu livro A Escravidão e Abolição no Espírito Santo sobre a reação dos negros quando foi anunciado o texto da lei Áurea, de 13 de maio de 1888. O texto só chegou ao Espírito Santo em telegrama recebido no dia 14. O jornal A Província do Espirito Santo só publicou a lei no dia 16.

Em O Cachoeirano, do dia 20 de maio, circulava pela Vila de Cachoeiro de Itapemirim, não só com o texto da lei, mas informando que os festejos começaram por ali no dia 16, ou seja, três dias depois de decretada a lei.

Segundo Vilma Almada, os proprietários de terras se viam num impasse. Precisavam de mão-de-obra numerosa para o cultivo de suas lavouras. Na fazenda, a maior parte dos libertados se recusava a continuar o trabalho, limitando-se muito a fazer a colheita daquele ano. Diante da incerteza de poderem continuar contando com a mão-de-obra de ex-escravos, os fazendeiros capixabas apostaram na chegada dos imigrantes europeus.

Um caboclo valente

Em 7 de setembro de 1887, no povoado de Regência Augusta, antiga Barra do Rio Doce, na foz do rio do mesmo nome, Caboclo Bernardo, aos 28 anos, conseguiu salvar os náufragos do cruzador Imperial Marinheiro, um dos mais novos barcos da Marinha de Guerra do Brasil. O navio havia se chocado contra o pontal sul da Barra do Rio Doce, a 120 metros da Costa.

Como seu pai, o velho Manduca, o caboclo conhecia as manhas do rio, do mar e da mata da região. Após várias tentativas para salvar os náufragos num escaler com 12 homens, que acabou se arrebentando com a fúria do mar, o caboclo jogou-se na água, tentando levar até o cruzador um cabo de espia.

Depois da quinta tentativa, consegue chegar até o navio com o cabo. Dos 142 homens, caboclo Bernardo conseguiu salvar 128. De caboclo tornou-se herói e foi levado ao Rio de Janeiro para receber homenagens e a medalha humanitária de primeira classe. Bernardo rejeitou o posto que lhe foi oferecido na Capitania dos Portos em Vitória, porque não queria sair de Regência.

Aos 47 anos, foi visto "descalço, andrajoso e esquecido". Aos 55 anos, foi assassinado a tiros de garrucha por outro caboclo chamado Lionel, que atava cheio de cachaça. Anos depois, o criminoso se dizia arrependido e não sabia explicar o motivo do homicídio. Se não fosse a cachaça, talvez a garrucha não tivesse disparado.

 

Fonte: O reinado do café, A Gazeta 31/08/1992
Pesquisa e textos: Geraldo Hasse, Linda Kogure e Abmir Aljeus
Fotos: Valter Monteiro e Tadeu Bianconi
Concepção gráfica: Sebastião Vargas
Ilustração: Pater
Edição: Orlando Eller
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2016



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O Reinado do Café no ES

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