Morro do Moreno: Desde 1535
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Passeando pela história capixaba – Por Nelson Abel de Almeida

Vasco Fernandes Coutinho

Esta foi uma história que começou, já faz muito tempo; esta foi uma história que tem sido contada, repetida e recontada e, quando chega ela, ao seu final, todos os que a ouviram agem como crianças que, de braços passados ao pescoço da preta velha, olhinhos pesados de sono, logo pedem - conta outra vez. E outra vez, para encantamento das crianças ingênuas; a história é repetida.

Hoje, nesta hora solene, nesta hora de evocações e de rememorações justas, devo eu, como a preta velha, repetir a mesma história, e com as mesmas palavras. Hoje, neste instante cívico, devo eu relembrar os mesmos episódios e terei de fazê-lo com as mesmas palavras, já usadas por outros que, em outros anos, me precederam nesta tribuna augusta, agora, por mim, deslustrada.

Está-se nos primeiros trinta anos do século XVI. Em Paris, um português - o Dr. Diogo de Gouveia - é reitor do Colégio Santa Bárbara. E mal pensaria ele que, um conselho seu a D. João III, iria decidir da sorte da Terra de Santa Cruz.

E realmente, foi após ouvir o. Dr. Diogo de Gouveia, que o rei de Portugal deliberou enviar, a Martim Afonso de Souza, uma carta, na qual vem inserto o seguinte trecho;

"depois de vossa partida se praticou proveitoso seria ao meu serviço povoar-se toda esta costa do Brasil, e algumas pessoas me requeriam capitanias em terra dela. Eu quisera, antes de nisso fazer cousa alguma, esperar por vossa vinda, para com vossa informação fazer o que bem me parecer, é que na repartição que disso se houver de fazer, escolhaes a melhor parte. E porém porque depois fui informado que de algumas partes faziam fundamento de povoar a terra do dito Brasil, considerando eu com quanto trabalho se lançaria fora a gente que a povoasse, depois de estar assentada na terra, e ter nela feitas algumas forças, determinei da mandar demarcar de Pernambuco até o Rio da Prata, cincoenta léguas de costa a cada capitania, e antes de se dar a nenhuma pessoa, mandei apartar para vós cem léguas e para Pero Lopes, vosso irmão, cincoenta legoas, nos melhores limites dessa costa, por parecer de pilotos e de outras pessoas de quem o Conde por meu mandado se informou; como vereis pelas doações que logo mandei fazer, que vos enviará; e depois de escolhidas estas cento e cincoenta legoas para vós e para vosso irmão, mandei dar a algumas pessoas que requeriam capitanias de cincoenta legoas cada uma; e segundo se requereu parece que se dará a maior parte da costa; e todos fazem obrigação de levarem gente e navio á sua custa, em tempo certo, como vos o Conde mais largamente escreverá; porque ele tem cuidado de me requerer vossas cousas; e eu lhe mandei que vos escreves-se".

Mas, se na carta a Martim Afonso de Souza, refere o monarca português, ter mandado dar terras às pessoas que as requeressem, em 12 de Junho de 1534 expede ele uma carta de doação, na qual afirma:

"a quantos esta minha carta vyrem faço saber que comsyderando eu quanto serviço de deus e meu proveyto e bem do meus Regnos e senhorios e dos naturais e subditos deites he ser ha minha costa e a terra do brasyll mais povoada do que hathe agora foy asy para se nela aver de celebrar o culto e oficias divinos e se emxaiear a nossa fee catolica com trazer e provocar a ella os naturais da dita terra ymfieis e ydolatras como por o muito pro-veyto que se seguiraa a meus Regnos e senhorios e aos naturais e subditos delles de se ha a dita terra povoar e aproveitar ouve por bem de ha mandar Repartir E ordenar em capitanias de certas em certas lagoas para delias prover aquelas pessoas que me para esse peito qual esgoardando eu hos muytos que Vasco Fernandes Coutinho fildalguo da minha casa a Ell Rey meu Senhor e Padre que santa gloria e ja e mys tem feytos asy nestes Reynos como em afixa e nas partes da Ymdia onde seryyo em muytas que se nas ditas partes fizeram nas quais deu sempre de sy muy boa comta e por folgar de lhe fazer merce de meu próprio moto certa ciencia poder Reall abssoluto sem me elle pedir nem outrem por elle ey po bem e me apraz de lhe fazer como de feyto por esta presente carta faço merce e ymrrevogavell doaçam antre vivos valedoura deste dia para todo sempre de Juro e herdade para elle e todos os seus filhos netos herdeiros e ssobcessores que após elle vyerem asy descemdemtes como transversais e collaterais,segundo adiante hyraa deerarado do cinquoenta legoas de terra na diata costa do brasyll as quais se começaram (na parte onde acabarem as cinquoenta lagoas de que tenho feito mercê a Pero de Campos Tourinho) e correram para a bamda do sull tamto quamto couber nas ditas cymquoentas legoas Emtramdo nesta capitania quais quer Ylhas que houver athe dez lagoas ao mar na fromtariat e demareaçam destas cymquoentas lagoas de que asy faço merçe ao dito Vasco Fernandes as quais cymquoenta lagoas se entederam a serem de de larguo ao larguo da costa e emtraram na mesma largura pelio sertam e terra fyrme a demtro tanto quamto poderem e for de minha comquista da qual terra peita sobredita demareaçam lhe asy faço doaçam e merçe de Juro e herdade pera todo sempre. como dito he e quero e me apraz que o dito Vasco remendes e todos os seus herdeiros e sobcessores que ha dita terra herdarem we sobcederem se posam chamar capitaes e governadores della".

Assim, aquele 12 de Junho de 1534, data em que foi expedida a carta de doação, em favor do herói e fidalgo, que foi Vasco Fernandes Coutinho, marca o início desta história, há tanto começada.

E se a carta de doação tem a data de 12 de Junho de 1534, o foral é de 7 de Outubro do mesmo ano.

Agora, ao português que, em Ásia e África, tanto se distinguira na luta contra os infiéis, no português que, ante nada se amedrontava, e "levantava um mouro do cavalo com a ponta da lança, atirava-o ao chão e matava o infiel", agora, a Coutinho só restava caminhar para o Novo Mundo, a tomar posse da sua capitania, só restava vir e, como outros, fazer da sua donataria o cadinho em que se haveria de fundir uma nova civilização, temperada pelo sangue do índio, do negro e do branco.

Vender tudo, renunciar à tença de trinta mil reais que lhe concedera a Coroa, em troca de um navio e de alguma provisão, foi o que deliberou o Senhor de Alenquer.

E com, aproximadamente sessenta pessoas, dentre as quais estão D. Jorge de Menezes e D. Simão de Castelo Branco, vem o donatário, trazido pela nau "GLORIA", a caminho da glória e do sofrimento, a caminho da imortalidade e do infortúnio, palmilhar, séculos a fora, como vem palmilhando, a incompreensão da História e suportar o julgamento injusto dos que, nos primeiros tempos, registraram os acontecimentos históricos na Terra de Vera Cruz.

A viagem ninguém, sabe como transcorreu; a sua chegada é, entretanto, bem conhecida. Ocorreu ela a 23 de Maio de 1535, domingo do Espírito Santo. Dai o nome da vila, cuja construção logo se iniciou.

Mas, naquele 23 de Maio de 1535, quando a nau de Vasco Fernandes ancorou na enseada, de todos bem conhecida, próxima ao Monte Moreno, é possível tenha ele pressentido como ia ser árdua a sua luta; é que ali, armados, com aspeto pouco amigo, estavam os indígenas. E se as peças de bordo não se fizessem ouvir, difícil teria sido o desembarque.

De agora por diante, a terra moça e virgem, iria conhecer a civilização, a indiada bravia iria ser reduzida à lei do Suave Nazareno, as primeiras construções iriam ser assentadas.

Homem de fé, acompanhado de colonos tementes a Deus, não demorou Coutinho em fazer construir uma capela, pequena embora e que segundo informa Basilio Daemon foi construída "próxima à praia e no fim da mesma pouco mais ou menos no lugar hoje denominado rua de S. João", atualmente rua Luciano das Neves. Esta capela, foi consagrada à Senhora do Rosário e "a sua pedra d'ara recordas às gerações o milésimo de fundação da mais antiga freguesia do Brasil: 1535. Lá está, também, em uma das capas, como a lembrar a origem nobre, o nome: Lisboa. A devoção exigia mais que um simples granito da terra dos bugres..."

Agora, realmente, abria-se, na terra moça, uma fase nova; e distribuia-se terra a alguns; e a D. Jorge de Menezes coube a Ilha do Boi, como a Valentim Nunes tocou a Ilha dos Frades. E o próprio donatário, para si separou um trecho de terra, registando Daemon; - Vasco Fernandes Coutinho ordenou ainda a construção de um engenho e principiou a abrir uma situação e nela foi residir no lugar conhecido hoje por SITIO RIBEIRO, pertencente ao Sr. Paulino. No local ainda se veem derrocados paredões, restos de alicerces e paredes ruínas, tudo disseminado; ali residiu também Vasco Fernandes, filho e D. Grinalda, que fizeram diversas doações. Mais tarde pertenceu à família Freitas, dizendo a crônica que os padres jesuítas dela também foram senhores, e que em escavações feitas ali ou em trabalhos de agricultura se tem encontrado dinheiro e objetos antigos".

Para Coutinho não foi fácil o viver na sua capitania, no seu VILÃO FARTO como, todo enamorado dela, ele a chamava.

A terra era coberta de espessa vegetação, o que facilitava e incentivava o ataque da indiada, mas para Vasco Fernandes não havia dificuldades que ele não procurasse vencer, ou contornar, não havia sacrifícios que ele não fizesse pela terra que lhe fora doada. E desejoso de vê-la crescer e prosperar busca o auxílio de Duarte de Lemos, a quem faz doação da Ilha de Santo Antonio, onde está a cidade de Vitória. Era chegado o ano de 1537.

Para o Brasil, 1549 é um marco na sua história; foi naquele ano que aqui chegou o primeiro governador geral. Também, 1549 é um marco para o Espírito Santo, pois, nesse ano, aqui aportaram os jesuítas Leonardo Nunes e Diogo Jácome.

E, no ano seguinte, para melhor defesa da gente da capitania, nascia a Vila de Vitória, na Ilha de Santo Antonio.

Foi, sem dúvida, fato de notável repercussão, este ora referido.

Ele, entretanto não impediria que os dissabores, freqüentemente, amargurassem a existência do donatário.

Hoje eram as estropelias dos índios, colonos e fidalgos; amanhã seriam as atitudes dúbias de Duarte de Lemos; logo mais seria a intransigência e seria o pouco tino do bispo D. Pero Fernandes Sardinha.

Estava escrito que o donatário da Capitania do Espírito Santo teria que beber, até à última gota, o cálice do sofrimento que ele mesmo, com a sua alma de sonhador e com seu coração de idealista, buscara para si.

Também estava escrito que a sua luta não seria inglória, não seria em vão; ele não semearia em terra sáfara; a sua obra, a despeito de todas as dificuldades, se multiplicaria em frutos sazonados.

Aqui também floresceria a cana de açúcar; aqui também se instalariam os inacianos e não se esqueça que, e outros historiadores já o registraram, o Espírito Santo foi "a única das Capitanias brasileiras em que os jesuítas sempre viveram em paz com os habitantes". E um colégio foi, aqui, construído pelo infatigável Padre Afonso Braz. A fundação jesuítica teve o nome de São Tiago. Porque? Ninguém o sabe. Mas, Teixeira de Oliveira opina: - "Não se sabe de onde veio o nome de Santiago dado à fundação jesuítica: se de alguma capelinha que existisse no local ou se traduzia uma recordação do dia em que talvez fosse abençoado o templo - vinte e cinco de julho de 1551. O certo é que a quatro de maio de 1552 já o Colégio tinha esse nome".

Hoje o venerando Colégio é o imponente Palácio Anchieta, sede do Poder Executivo Estadual.

Daqui, da capitania, fraca e desprovida, partiu Arariboia, com os seus frecheiros, a ajudar na luta contra os franceses de Villegagnon.

E o primeiro século da civilização, na capitania, assistia, também, à chegada de Pedro Palácios, aquele religioso leigo, brasa viva da fé, que trouxe o painel da Virgem Santíssima, implantando para todo o sempre, aqui, a admirável, e tão queria devoção de Maria, na terra capixaba, desde então colocada sob a proteção da Mão do Homem Deus, da Virgem Puríssima da Penha. Nesta terra abençoada ensinaria, pregaria e veria, pela última vez, a luz do sol, o Apóstolo do Novo Mundo, o Venerável Padre José de Anchieta.

E a história caminha impassível, inexorável; as suas páginas se sucedem umas às outras; e elas registrariam a obra de Vasco Fernandes Coutinho; e elas diriam que, em 1561, ele faleceria. Mas quando? Em que dia? Em que mês? Segredo da história, a desafiar os pesquisadores. E eles são muitos, são inúmeros, são todos os que se interessam pelas cousas da terra capixaba, pelas cousas do seu passado.

Este ano de 1961 é aquele em que se comemora o quarto centenário do falecimento do nosso grande, e heróico donatário. Quatro séculos se estão concluindo. Não fica, a nossa história, nada a dever às de suas outras irmãs.

Como todas elas, a donatária de Vasco Fernandes Coutinho também sorriu quando o Brasil sorriu, também sofreu quando o Brasil sofreu: e ela também lutou e resistiu e expulsou o invasor estrangeiro.

Foi, assim, a nossa capitania, de uma fidelidade ímpar á civilização portuguesa.

Ingleses de Cavendish em 1592, ou holandeses de Pieter Hoyr em 1625, seriam inexoravelmente batidos no Espírito Santo.

E os séculos passariam, deixando a marca de sua passagem na história da capitania. E os seus filhos também serviram, ao Brasil, com denodo; e morreram pela liberdade da Pátria com arrojo e bravura, como Domingos José Martins, na Bahia, em 1817.

Na Guerra do Paraguai, seria sentida a presença do soldado capixaba. E nem mesmo, à nossa história, faltou uma rebelião de escravos.

Antonio Claudio Soído na Guerra do Paraguai, o Caboclo Bernardo no episódio do "IMPERIAL MARINHEIRO" e Elisiário, na Insurreição de Queimados, bem retratam a fibra heróica de um povo, bem resumem a história de uma gleba que teve a felicidade de ser o berço do chefe da primeira revolução republicana brasileira.

A Abolição e República não encontraram a capitania, de braços cruzados, em atitude contemplativa; o povo, pelos seus mais legítimos representantes, vibrou com elas e por elas.

Afonso Claudio, Aristides Freire, Cândido Costa, Moniz Freire, Bernardo Horta, Antonio Gomes Aguirre, Graciano Neves, Constante Gomes Sodré, e tantos outros, foram os seus líderes, no Espírito Santo.

E com a República mais se acentuou o progresso da capitania, afinal um dos Estados da Federação.

Hoje é Moniz Freire, o primeiro a sonhar com o voto secreto, e também o idealizador da Estrada de Ferro Sul do Espírito Santo; amanhã é Jerônimo Monteiro, o remodelador da Capital do Estado, o construtor da linha de bondes, ligando Vitória a Vila Velha, o administrador que deu água encanada, luz elétrica e esgotos à capital do Estado, como também o pioneiro do parque industrial espírito-santense e reformador de sua instrução pública; mais tarde seriam Bernardino Monteiro, Florentino Avidos, Marcondes de Souza, Nestor Gomes e tantos outros, que tanto dignificaram a terra capixaba.

Quatrocentos anos se estão completando, neste ano de 1961, da morte de Vasco Fernandes Coutinho. O seu sacrifício e os seus sofrimentos, as suas lutas e as incompreensões de seus contemporâneos, bem serviram para consolidar a sua obra, para perpetuar o seu nome, apontando-o, a todos nós, os seus pósteros, como um símbolo, símbolo de pertinácia, de perseverança e de quanto pode e de quanto realiza o homem, verdadeiro idealista.

Vasco Fernandes Coutinho, hoje, nesta hora e para todo o sempre, podemos todos proclamar, pela obra que realizou, pelo exemplo que legou, pelo coração que possuiu, pelo desprendimento de que deu provas sobejas, não foi um aventureiro, porque foi o realizador de uma idéia, foi o campeão de um ideal, foi o semeador de uma civilização no Novo Mundo, civilização essa que ele, no século 16, com a sua alma de escol, transplantou para a terra capixaba.

 

(*) Palestra proferida em 1961, por ocasião das comemorações do 4º Centenário da morte de Vasco Fernandes Coutinho.

 

Fonte: Torta Capixaba – Poesia e Prosa, Academia Espírito-Santense de Letras, Biblioteca de Autores Capixabas, volume 3, 1989
Autor deste texto: Nelson Abel de Almeida
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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