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A Viagem - Por Ormando Moraes

Anchieta - Porto Benevente 1874

Não se sabia por que, mas deu na telha do pai de Manduca mudar-se com a família para a Barra, modesta vila do litoral norte do Estado do Rio, na divisa com o Espírito Santo, onde não havia nenhuma atração que justificasse o penoso deslocamento. O lugar era pobre, os meios de comunicação muito difíceis e tinha como atividades econômicas mais importantes apenas um estaleiro para construção de pequenas embarcações de madeira, a pesca, uma agropecuária rudimentar e a extração de madeira, muito farta às margens do rio e em toda região da baixada, tanto em um Estado quanto no outro.

Benevente, como ainda era chamada a sede do município de Anchieta, no Espírito Santo, pelo menos tinha o título de cidade, era um porto bem frequentado por navios em busca do café produzido nas serras ao fundo, de Alfredo Chaves, contava com uma pequena estrada de ferro até essa localidade, era muito referida como ponto de desembarque de imigrantes italianos até o começo do século e ficava mais próxima de uma capital, isto é, Vitória. Mas não adiantaram as reclamações e o receio da mulher por mais uma aventura, nem a choradeira das crianças por deixarem seu canto, seus bichos, seus amigos, de sorte que, naquela madrugada de janeiro de 1918, às 2 horas, toda a família já estava aboletada na lancha "Sgarta", a motor e vela, após acomodar como pôde seus bens, suas marquesas, seus caixotes, suas malas e suas trouxas. Na acanhada sala de comando mal podiam sentar-se o pai, a mãe com Manduca ao colo, enquanto o casal de filhos mais velhos, a Tia Nana e a agregada Tereza já dormiam embolados entre trouxas, no beliche do pequeno camarote ao fundo, que pertencia ao Mestre da lancha e só em emergências especiais era ocupados por passageiros. Mestre Jorge postou-se em frente à roda do leme e dos modestos instrumentos de navegação do barco, enterrou na cabeça o boné de sua categoria e autorizou a soltar as amarras do Trapiche do rio Benevente, a ligar o motor e a levantar o pano da proa.

- Se o terral ajudar, o que parece estar garantido, se o motor não falhar, nem surgir qualquer outro contratempo, às 8 horas da manhã, na preamar, vamos entrar na Barra com facilidade.

Sob o tum-tum-tum cadenciado do motor a óleo, a lancha foi, se afastando rio a fora, ultrapassou a barra, venceu a arrebentação e a uma distância de uns 1000 metros da praia, tomou a direita e se dirigiu para o sul, já agora com a vela dianteira enfunada por um terral meio fraco, que deixava Mestre Jorge algo desconfiado, embora sem dizer palavra. O mar não estava muito agitado e a lancha, com bom desempenho, ganhava velocidade satisfatória. A rota era conhecidíssima de Mestre Jorge e a noite, não muito escura, deixava perceber a silhueta do Monte Agá e das serras do interior, mais ao fundo. Depois o povoado de Iriri, Piúma, a Praia de Itaoca e as ilhas costeias dos Franceses e dos Ovos. Era verão e o dia já estava claro quando atingiram, às 5 horas da manhã, a altura de Barra de Itapemirim e perceberam a aproximação da borrasca: na linha do horizonte, bem longe, era visível uma faixa cinzento-escuro, indicativa da massa fria de chuva impulsionada pelo indesejável vento sul. Para Mestre Jorge, aquilo era refresco se estivesse só com seus dois marinheiros, mas, com aquela cambulhada de crianças, dava para preocupar, e ele sentiu um friozinho no estômago. Tratou de exigir o máximo de sua modesta e querida embarcação, mas o terral já não ajudava. Na altura da barra da Lagoa do Siri, sentiram-se as primeiras rajadas de vento sul, o mar se transformou e agitou-se e uma cortina de chuva fina, fria e muito veloz reduziu violentamente o horizonte, enquanto a lancha jogava terrivelmente entre as ondas, deixando uma impressão nítida e insuportável de sua fragilidade.

- Mestre Jorge, eu exijo sua volta a Itapemirim. A lancha não vai aguentar este mar e este vento e eu não posso sacrificar minha família - disse o pai de Manduca, afetando energia.

- Ahn? Voltar coisa nenhuma. Você devia saber que em barco meu só entra homem de culhão e mulher que entrar e criança que acompanhar têm de obedecer. Vou chegar na Barra ainda hoje, nem que seja com vocês todos embolados lá no porão.

- Ajudai-nos Nossa Senhora da Penha. Valei-nos minha Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana - balbuciou a mãe de Manduca, já de terço na mão para puxar uma reza, e procurando no baú e nas trouxas do beliche umas palmas bentas em Domingo de Ramos pelo Bispo Dom Helvécio, em Benevente, que ela, em sua santa ingenuidade, considerava remédio infalível contra trovoadas e tempestades.

- Igreja Romana que só ensina a pedir e a rezar na hora do aperto, mas não dá um passo sequer para acabar com a fome e a miséria que atingem tanta gente - aparteou o pai de Manduca, mas logo aquietou com o pinote mais violento da lancha e a nova intervenção do Mestre:

- Deixa a mulher rezar, que reza e água benta nunca fizera mal a ninguém.

Estabeleceu-se na cabine um silêncio constrangedor e o pai de Manduca ficou a remoer sua desaprovação àquela aventura e sua dúvida quanto à resistência da lancha e à eficiência de seu motor. "A arrogância desse Mestre - pensou - é indicio de gente que não sabe onde tem o nariz e esse motor de batidas tão fracas só pode ser de fabricação inglesa, que é uma merda. Se fosse de origem alemã, "made in Germany", seu desempenho seria outro e o barco venceria melhor este mar bravio. Sei não, mas se agora eu pudesse pegar no baú minha carabina alemã, "made in Germany", encostaria o cano no peito desse filho da puta e o obrigaria a voltar e buscar porto seguro em Itapemirim. Mas deixa pra lá. Deus é bom pra caceta e há de nos salvar" - concluiu indignado seus pensamentos.

Enquanto isso, a lancha recebia pela proa o impacto violento das ondas e gemia penosamente no seu sacolejar. A água lavava o convés de proa a popa e penetrava por todas as frestas, inclusive no porão, onde Um dos tripulantes, com uma pequena bomba, defendia sobrevivência da embarcação, jogando fora os excessos. Foi quando Nana, meio tonta e muito pálida, pôs a cabeça na porta do camarote para indagar o que havia, mas tossiu um pouco e não pôde se aguentar: despejou uma farta golfada de vômito azedo, enriquecido pelas extravagâncias que fizera antes da viagem, comendo excessivamente bolos, broas, roscas e brevidades, cuja fartura só havia mesmo em ocasiões especiais. O vômito se espalhou pela cabine do Mestre e foi atingi-lo na perna da calça.

- Merda - disse ele com raiva, sem poder deixar a roda do leme para limpar-se e tendo de suportar o mau cheiro do vômito azedo.

Nana ainda ficou agarrada à porta, meio abestalhada, quando, a um corcoveio mais forte da lancha, esborrachou-se no chão, em cima do próprio vômito, sujando-se toda.

Muito sério e sem dizer palavra, o pai de Manduca arrastou-a e jogou-a no beliche, mas, nessa altura, as outras crianças também acordaram e cada qual despejava seu vômito em qualquer lugar, sobre as camas e sobre as roupas, havendo até quem evacuasse e agravasse a situação de sujeira. A mãe de Manduca mal se mantinha sentada no canto do banco. Vomitou ali mesmo, escondendo um pouco o rosto com um lenço, mas seu Novais não ficou tão humilhado; pôde abrir uma janelinha e jogar seu excesso para fora da cabine, mas foi castigado por uma lambada de onda que o molhou bastante. Daquele grupo, apenas Tereza e Mestre Jorge não estavam mareados, o que provocou deste a seguinte manifestação, como adivinhando o futuro:

- É, menina, você serve para casar com um filho meu.

A lancha continuava enfrentando as ondas, a chuva e o vento, a pouca distância da costa, para prevenir situações intransponíveis. Sua marcha era muito lenta de sorte que só às 11 horas chegou às proximidades da barra do Rio Itabapoana, mas Mestre Jorge logo percebeu ser impossível transpô-la àquela hora, visto estar baixa a maré e serem visíveis, apesar do intenso nevoeiro, os perigosos bancos de areia.

Não podia também ancorar e ficou bordejando pelas imediações, maldizendo-se intimamente por haver contratado o transporte daquela família que atingia o auge do sofrimento pelo enjoo do mar, nas horas intermináveis em que aguardavam a maré da tarde. O mar permanecia muito agitado e esse período de espera foi mais angustiante do que a própria viagem em sua fase mais crítica.

Finalmente, cerca de 5 horas da tarde, sob grande alivio de todos, tanto passageiros quanto tripulantes, a "Sgarta" transpôs a barra, vagarosamente, foi sendo manobrada por Mestre Jorge e, por uma deferência à família, ultrapassou o velho trapiche, o estaleiro de construção naval e atracou no modesto cais de pedras brutas, em frente à venda do Abdala. O vento sul cortante e a chuva fria e miudinha continuavam. Na rua Beira Rio não havia viva alma. Ao apito da lancha, umas poucas cabeças se arriscaram em janelas entreabertas uns garotos vieram assuntar as novidades.

Quando a família de Manduca pisou em terra firme e começou a caminhar, carregando o que podia de seus teréns em bandalho, as poucas testemunhas existentes presenciaram um quadro desolador e Mestre Jorge, com um pé no bordo do barco, triste e cansado, disca ao seu ajudante:

- É duro chegar a este "cu do mundo" nestas condições, os mais velhos molhados, sujos, desalinhados, as crianças cagadas, mijadas e vomitadas, todos pálidos, meio tontos, cabelos empastados e olhos mortiços, mas foi melhor assim do que morrer no mar, tão perto da praia, e isto, abaixo de Deus, com todo respeito, eles me devem.

O próprio Abdala, de hábito pouco sensível ao sofrimento alheio, ficou penalizado com o estado da família, para a qual já havia arranjado casa, conforme autorização de Seu Novais, pai de Manduca.

- Corre Sumaia, leva essas crianças e a mãe lá pra dentro, arranja um banho, umas roupas, um leite, umas bolachas. Depressa Michel, chama o Pedro com a carroça para pegar a bagagem deles na lancha, que Mestre Jorge não é homem de esperar muito.

E ficou ali ouvindo um pouco o relato da penosa e difícil viagem marítima.

- Reza pra Deus, filho, por terem chegado sãos e salvos. Por aqui foi vento e chuva a valer: No mar deve ter sido osso duro de roer.

Já eram cerca de 8 horas da noite, quando os membros família de Manduca, mais recompostos, sob o efeito benéfico de algum alimento, seus trastes em desalinho pela sala e pelos quartos da velha casa onde morariam por longo tempo, olharam, com simpatia, colchões e esteiras, cobertores remendados e travesseiros sujos e despidos de fronhas. Rezaram em voz alta a reza mais curta das ensinadas por Dona Quitute e a que mais agradava às crianças, isto é, "com Deus me deito, com Deus me levanto, com a graça de Deus e do Divino Espírito Santo" e, sem comentários desnecessários, apagaram as duas lamparinas e todos se estiraram no chão, mergulhando rapidamente num sono profundo e reparador.

 

Autor: Ormando Moraes (Um dos primeiros capítulos do romance “Seu Manduca e outros mais", do próprio autor)

Fonte: Biblioteca de Autores Capixabas - Torta Capixaba II - Poesia e Prosa, Volume 3 - Editada pela Academia Espírito-santense de Letras, 1989

Comissão de edição: Neida Lúcia de Moraes, Ormando Moraes e Renato Pacheco

Diagramação, Montagem e Arte Final: Sergio Maitan

Composição: Copigraf Editora Ltda

Capa: Carmen Lucia Marques

Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2022

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