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Colégio Estadual – 90 anos

Colégio Estadual de Vitória, ES

Ao ensejo da passagem do 89º aniversário de fundação do Ginásio do Espírito Santo, ocorrido no dia 24 de setembro do ano passado, a Secretaria de Estado da Cultura e Esportes registrou o evento com a edição de um livro contendo depoimentos de seus ex-alunos.

Não pude atender, à época, à generosa convocação que me fez aquele importante órgão da administração pública, para integrar a lista dos que, com os seus depoimentos, resgataram a memória do velho Ginásio.

Não há quem não se orgulhe de ter sido aluno do vetusto educandário que teve assegurado um lugar de destaque na vanguarda dos mais respeitados estabelecimentos de ensino do País, responsável que foi pela formação moral e intelectual de uma gama imensa de gerações que se projetaram e ainda se projetam nos mais diversificados campos do saber.

Das gratas recordações que guardo daqueles memoráveis tempos, sobressaem-se as figuras dos saudosos mestres, alguns deles bem rigorosos, mas todos eles, sem exceção, com cuidados paternais na orientação de nossos estudos e de nossa conduta moral.

Os colégios daqueles tempos eram uma extensão dos nossos lares.

Dentre esses mestres ilustres, avultam as figuras de Ceciliano Abel de Almeida, Guilherme Santos Neves, Nelson Abel de Almeida, Clóvis Rabelo, Mauro de Araújo Braga, Manoel Moreira Camargo, Edson Frazão Cavalcanti, Francisco Generoso da Fonseca, Mário Tavares, Eugênio Pellerano, Zilda Andrade, Zaluar Dias, Ricardina Stamato da Fonseca e Castro e tantos outros.

E porque a escola era risonha e franca, como a definiu festejado poeta, a austera disciplina nas classes era quebrada, aqui e ali, por momentos de descontração, tanto para alunos quanto para professores.

Foi assim em dois episódios que passo a relatar.

Certo dia, o professor Mauro Braga, que lecionava História Geral e do Brasil, depois de feita a chamada, com gestos largos e seu simpático sorriso anunciou para a turma que, naquele momento, estava atirando para todos a nota dez! Explicara, depois, a metodologia que adotara para a aferição do aproveitamento de cada um dos alunos: ao longo do mês faria arguição da matéria ministrada, fazendo votos para que todos mantivessem a nota máxima.

Como de ordinário acontece em classe de estudantes, a nossa, não fugindo à regra, tinha colegas gaiatos, chatos – no bom sentido – e sonsos.

Terminada a explicação e justo no momento em que o velho mestre ia iniciar a aula daquele dia, um colega, da categoria dos sonsos, com o dedo indicador da mão direita levantado, pediu ao professor permissão para falar, e saiu-se com essa:

- Professor Mauro, quando o senhor atirou os dez, aconteceu que quando fui pegar o meu, consegui pegar só o zero. Como é que eu fico?

Prorrompeu a classe em ruidosa gargalhada pelo inusitado da brincadeira partida, como partiu, de um colega da categoria dos sonsos, como já disse.

O professor Mauro Braga não se alterou. Achou também graça do que dissera o colega e atalhou: “Pois bem, diante do que aconteceu, para o senhor, a regra se inverte. O senhor fica com a nota zero e se esforçará para atingir a nota máxima.” E continuou o mestre: “Não sei se psicologicamente será mais fácil começar do zero para alcançar a nota dez”.

O saudoso mestre deu-nos, com esse episódio, uma lição de comportamento que deveríamos seguir ao longo de nossas vidas.

Esta outra passagem de meus tempos de estudante do velho Ginásio do Espírito Santo demonstra, de um lado, a observação aguda de saudosa mestra e, de outro lado, a presença de espírito do aluno.

A professora Zilda Andrade passara para exercício de casa um desenho projetivo da sombra de um objeto projetada sobre uma superfície plana. Seria atribuída ao trabalho a nota do mês.

Era eu péssimo aluno em desenhos de certa técnica e sofrível em outras. Bem por isso, pedi a ajuda de nossa mãe (hoje com 98 anos, lúcida, cercada pelo carinho dos parentes e amigos) que me ajudasse. Fez ela um desenho caprichado: a sombra de um muro projetada sobre uma calçada.

Na aula subsequente, cada um dos alunos, em fila, apresentou à Dona Zilda o seu dever de casa, cuja nota era lançada na respectiva pauta. Quando chegou a minha vez, Dona Zilda olhou para o desenho e me encarou, dizendo: “Isso tem dedo de Dinorah.” E, como não podia deixar de ser diferente, sob pena de cometer uma injustiça contra sua amiga e ex-colega de magistério, “tascou” a nota dez.

No mês de junho, Dona Zilda nos deu como tarefa de aula, para nota do mês, um desenho que evocasse uma festa junina. Abri o meu caderno na folha do desenho da projeção da sombra do muro, fiz correr uma linha em cada uma de suas extremidades até a um poste onde desenhei uma luminária. Ao longo das duas linhas, desenhei bandeirolas, que colori com esmero. Fiz, ainda, alguns balões, também coloridos. Estava pronto o meu desenho que achei o “máximo”. Quando chegou a minha vez, apresentei-o à Dona Zilda, que foi logo dizendo: menino, você soube aproveitar, e bem, o desenho do mês passado, mas este não está completo. Nunca vi uma festa de São João sem fogueira. Sem pestanejar, atalhei: é que a fogueira, Dona Zilda, ficou do outro lado do muro... A saudosa mestra, rindo muito, repetia: menino, você não presta (era uma das formas carinhosas de Dona Zilda se expressar).

Estes episódios singelamente relatados, ao serem relembrados, enternecem os corações, e fazem dos ex-alunos do Colégio Estadual do Espírito Santo uma grande e saudosa fraternidade.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 50, ano 1998
Autor: Rômulo Salles de Sá
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2013 

 

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