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De bonde com Grijó pelo Parque Moscoso

Parque Moscoso, foto antiga

Como se torna difícil o acabamento de um livro em que me proponho a falar sobre coisas e pessoas da ilha. Quando começo a me preparar para o encerramento, eis que me vêm à memória novos fatos e pessoas, e caso não os cito estarei cometendo injustiças. Por exemplo: o meu irmão de leite, hoje falecido, Guilherme Ayres, que era casado com Dóris Oliveira Miranda. Além de ser uma das pessoas que possuía um farto "depósito de memória" sobre nossa ilha, era um grande cozinheiro e gostava de receber os amigos para a degustação de pratos preparados por ele. Assim é que era comum aos sábados e domingos Cariê, Cesar Mendonça, Eduardo Curry, Sérgio Rocio, Chrisógono Teixeira da Cruz, Antônio Batalha Barcelos e outros, devidamente acompanhados de suas esposas, saborearem suas famosas iguarias. Guilherme nos deixou saudades. Outro que não perdia reunião era o médico Carlos Mariano Peixoto, e sua esposa, dona Trahude. Na varanda de sua residência discutia-se e conversava-se de tudo. Ainda com respeito ao casal, desejo esclarecer que em páginas anteriores comento a exuberância do broto na época que era Dijalminha Firme Coutinho. Mas acontece que me esqueci da irmã de Dóris, a nossa Néa, conhecida carinhosamente como "Chininha". Ela também era de fechar o comércio. Trabalhava no DER e, quando passava pela Avenida Jerônimo Monteiro, os homens se posicionavam para vê-la passar, mesmo não sendo a Dora da música de Dorival Cayme. Outro casal que ia me esquecendo de citar: Maria Clementina Velloso e Arthur Carlos Gerhardt Santos. A esse casal, depois de meus pais, devo muita coisa de minha vida, principalmente por ocasião da enfermidade de minha saudosa esposa. Ia me esquecendo também do casal Hilbebrando Lucas e sua esposa Orlandina de Almeida Lucas. Antigo dentista em Vitória, gostava de trajar-se de branco e não se separava de um charuto havana. Era pai de uma prole composta por dez filhos: Carlos Laerte, Lizete, Laede, Laélio, Lêda, Carlos, Lenildo, Laércio, Liney e Hildebrando, a maioria com curso superior — medicina, odontologia e administração. O odontólogo Laércio é casado com Mariazinha Velloso Lucas, presidente do Tribunal de Contas do Estado, por diversas vezes, pais do atual prefeito de Vitória, Dr. Luís Paulo Velloso Lucas. Na área do rádio, ia omitindo o nome do folclórico Alfredo Mussi, com o seu famoso programa nostálgico que ia ao ar após zero hora e intitulava-se "Madrugada, madrugada, é mulher". Baseava-se em poesias, músicas de fossa e ia até as quatro da madrugada. José Carlos de Oliveira, o "Precoce", era o que seu apelido dizia. Figura popular como seus maiores amigos Christiano Dias Lopes, José Carlos da Fonseca e Antenor de Carvalho, sendo que este último foi secretário de Gabinete dos governadores Jones Santos Neves e Carlos Lindenberg. Também foi presidente da Casa do Estudante Capixaba, onde realizou a famosa "Festa da Juventude", uma espécie de parque de diversões, mas com apresentações culturais. Foi instalada onde hoje situa-se o Ed. Edgard Rocha e o Moinho Vitória. Permaneceu em atividade por mais de um ano. Mas, voltando ao José Carlos de Oliveira, foi ele que, por ocasião da visita do Brigadeiro Eduardo Gomes a Vitória, por ocasião de sua campanha política como candidato à presidência da República, arremessou a touceira de capim barba-de-bode no carro do Brigadeiro, que resultou no comentário que faço em páginas anteriores. Coisas de jovem. No entanto foi um dos melhores escritores de crônicas deste país.

Já que falei em jornalismo, como poderia deixar de falar sobre Arlon José de Oliveira, verdadeiro gênio da caneta. No entanto, o vício do álcool, fez com que ele às vezes se perdesse, não cumprindo seus compromissos. Mas poderia servir a qualquer jornal no Brasil. Outro cobra criada jornalismo capixaba é o Francisco Flores, o nosso "Chico Flores", com passagem em diversos periódicos da terra e atualmente em A Gazeta há mais de duas décadas. Também em A Gazeta a excelente jornalista e cronista Márzia Neves Figueira, esposa do meu amigo Jayme Figueira, filha do médico otorrinolaringologista e oftalmologista Dr. Raul Oliveira Neves (o meu primeiro médico otorrino). Ele tinha um hábito que chamava a atenção: a prescrição das receitas; eram escritas com a caneta de tinta verde. Para a época, década de 40, isso era raríssimo. Outro bom cronista era "José Luiz Pippa. Não poderia deixar de citar o Bar "Caranguejo", onde Walter, o "Pimpinella", era assim chamado devido a um personagem do comediante Silvino Netto. O Water adorava imitá-lo. Era uma voz aguda de mulher, Chiquito era outro da família e que mais tarde formou-se em advocacia e chegou ao cargo de corregedor da Política Civil do Estado. Faleceu jovem, acometido por enfarto do miocárdio em plena via pública. Morreu "novo" o Chiquito. Mas o mais popular, uma figura folclórica de Vitória, era o "Ciroca", querido por todos ali na zona do Parque Moscoso junto com uma galera formada por Moacir Bacana, Raul de Oliveira, Edídio "Foguetão" e Moacir Barros. Por falar em Moacir, ele e seu primo Zezito Haddade eram fora de série. O primeiro, no clarinete e o segundo, no saxofone. Ambos faziam parte de quase todos conjuntos musicais de Vitória. Aliás ouvi falar que o Zezito está lançando o seu primeiro CD. Se for verdade, recomendo-o. Já que estou no Parque Moscoso, por que não citar as residências de três antigas famílias da rua 23 de Maio, que ali moravam: Dr. Ornelas, Manoel Câmara e Egídio Coser? Na esquina, a loja de discos do radialista Miro Maia. Nesta rua também funcionou no local onde era a fábrica de gelo e sorvete do Sr. Manoel Vivacqua, um salão de boliche. Mas sua maior atração era sem dúvida o Cine São Luís, que lembra outra figura popularíssima, um noctívago de "primeira linha", o saudoso Jayme Santos, o "Bandejo", que era gerente do cinema e depois que encerrava as atividades do cinema, boêmia prá que te quero... Seu parceiro predileto era o engenheiro arquiteto Dr. Olympio Brasiliense, que era gente finíssima. Ainda na área do Parque Moscoso, uma grande firma existia. Quero me referir à fábrica de massas Apolo, pioneira em Vitória, e que também funcionava como panificadora, identificada por Padaria Sarlo sob o comando de dona Adalgisa e seu irmão Afonso Sarlo. Dona Elisa Sarlo Wilken era mãe de Wilma, Carlos e Victor; este, casado com Vera Vilaschi. Com o passar do tempo o comando da empresa foi passando para responsabilidade de Victor, que já começava a modernizá-la, transformando a velha padaria em um dos melhores pontos de lanche e serviço de pré-preparados alimentícios da ilha. Daí para frente o desenvolvimento da empresa transformou-a em uma das maiores do Brasil no ramo de massas. Além desse ramo, o Victor enveredou pelo de restaurante, tendo estabelecido os melhores de nossa orla marítima. No local onde funcionaram a padaria e a Tratoria Toscana, hoje funciona a agência bancária do Itaú. Bem próximo funcionavam os bares Jaú e Teixeira, ambos muito frequentados. O Jaú, que era do pai do saudoso Nilson Santos, o popular Nilson Jaú, era de frequentadores mais velhos, e o do Sr. Francisco Teixeira, pai do Teixeirão, tinha mais movimento devido ao jogo de sinuca que ali se praticava. Na década de 1960 o Dr. Durval Avidos construía o Ed. Moscoso, onde passaram a morar pessoas conhecidas de nossa sociedade, como: os Bachour, de seu Ellias e dona Ida e seu filhos, Cirene, Anuar, Aldezir e Adir. Ali também residia dona Alice Valentin Sarlo, que foi por muitos anos proprietária e escrivã do Cartório Sarlo, até que seu filho, o nosso saudoso Hélio Sarlo, assumiu, juntando-se a ele suas irmãs Lourdinha e Maria Alice. Depois, com a abertura de uma filial na Praia Comprida, seu irmão Renato assumiu o controle do cartório. Outros moradores de que me lembro eram os familiares do Dr. Hélio Leal, pai do atual secretário de Estado do Transporte (1999) Jorge Hélio Leal. Outra família era a do Sr. João Rizzo. Na parte térrea, ocupando toda a esquina, funcionava o American Bar (nome usado na época. "Dominó"), que marcou ponto junto à juventude. Foi ali que conheci dois grandes amigos meus: o folclórico professor de educação física e excelente jogador de basquete, Hélio Demoner, e outro ainda jovem, hoje homem forte do sistema telefônico do nosso estado, o Dr. Ruy Dias de Souza, ex-presidente da antiga Telest. Era filho de um dos homens mais íntegros de nossa cidade, o ex-professor e deputado estadual, além de secretário de Educação, Dr. Antônio Dias de Souza. Cito a residência do Dr. Alcides Guimarães, a Buzia, a de João Manoel de Carvalho, a dos Expedito Garcia e a do Dr. Fernando Lindenberg. Ali também se situava o Jardim da Infância Ernestina Pessoa; escola esta, comandada por dona Hilda Pessoa, que era esposa do industrial Píndaro Prado, proprietário do Guaraná Poranga, cuja fábrica ficava na entrada da Ilha do Príncipe, ao lado da Fundição José Amigo. Este era pai de Aldo, José Domingos e Oscar Amigo. Talvez tenha sido a fundição mais antiga do estado, pois tampas de bueiros citavam o ano de 1925. Não poderia deixar de citar os nomes de Jaime, Jaiza, Jarbas e Joel, moradores do Morro do Moscoso e todos populares em nossa cidade, sendo o grande destaque a minha ex-colega da Academia de Comércio de Vitória, Jaiza Telles de Sá, que era uma atleta de primeiro nível, principalmente em arremesso de peso, dardo e disco. Além de ter um corpo avantajado, pulava distância e corria 110 metros rasos. Onde concorria não dava para ninguém, era fora de série. Na vida particular era contadora do Sindicato dos Estivadores, onde sua família tinha diversos servidores. Faleceu há uns seis anos. Na subida do Morro do Moscoso, na Rua Loren Reno, onde fica o Colégio Americano, residia a família Batistela. Ali moravam os netos Isaac Rui Menezes e seu irmão Carlito Rui Menezes, que foi casado com a "menina das tranças", a cantora Dorys Monteiro, que na época tinha 18 anos. Foi um dos casamentos mais badalados do Rio de Janeiro, na época. O Carlito, depois de formar-se em Advocacia, fez concurso para promotor e ocupou a Promotoria de Guarapari por muitos anos, onde veio a falecer. Dentre os que não poderiam faltar no livro, os nomes de Salomão Nader, Amintas Ramos e João Serra, o Bananinha, que juntamente com José Brandão das Neves, o Zé Baixinho, e no futebol conhecido como "Jeep", eram verdadeiros baluartes do Americano Futebol Clube, cuja sede social ficava na Vila Rubim. Também não poderia deixar de inserir os nomes das amigas Bernardeth e Carminha Aguirre, Lígia Ramalhete, Lourdinha Galerani e Neida Silveira das Neves, que valorizam o elemento feminino capixaba. Não posso deixar de citar o nome do meu grande amigo Fábio Pelegrini. O que ele fez por ocasião da morte de minha esposa e durante toda sua longa enfermidade não se encontra no "gibi". Um casal antigo morador da Praia do Canto era formado por Zemar Lima e sua esposa Maria Amélia, pais de Maria da Penha e Zilce Lima. Maria da Penha casou-se com Jorge Tavares Corrêa, e Zilce, com o saudoso Joel Cabral. O primeiro casal é pai de Flávio, Adriano, Gustavo e Bruno; Jó, o Joel, e Zilce, pais de Marcella Maria Lima Cabral Schwab e Munique Maria Lima Cabral Martins. Jorge era representante comercial no ramo têxtil e acabou deixando tudo de lado para juntar-se ao ramo bem sucedido que sua batalhadora esposa abraçou, ou seja, o de recepções, no qual formou o famoso chefe de cerimonial Itamarati. Daí fez proliferar mais quatro casas intituladas El Rachid, três delas funcionam no Shopping Vitória (El Rachid I, II, III) e em breve surgirá na Praia do Canto o El Rachid IV. Com exceção do Adriano, que é funcionário da Receita Federal, os demais integram o staf, dividindo as funções na empresa. Não é a família Lima da música, mas é uma família de gente fina. Falei acima em Cabral. O Joel era irmão de José Alfredo; eram filhos de dona Gracinda Batistela e do desembargador Alfredo Cabral. O Zé Alfredo é casado com Anna Angélica Barbosa, filha de dona Aurora e do engenheiro Quintino Barbosa, pais também de Dause, Celene, casada com Dalton Lins, Roberto, o Beto, e Rogério, o Leléu, Leonardo, Rodrigo e Anna Paula são filhos do casal Anna Angélica e Zé Alfredo. Tudo gente finíssima. E não é que ia esquecendo-me do meu amigo Rogério Leal, primo do nosso amigo Ademar Leal, cobra do violão e melhor ainda no footvoley de praia? Rogério Leal, conheci-o ainda garoto. Hoje é um importante industrial no ramo de madeira.

Depois desses relatos, sinto-me feliz de ter assistido na ilha de Vitória às conquistas de quatro Copas do Mundo pelo Brasil e a perda dos títulos de 1950 e 1998, a chegada do Homem na Lua, o FIM da Segunda Grande Guerra Mundial e outras mais; fui governado por duas ditaduras, dos presidentes Jânio da Silva Quadros e Fernando Collor de Mello; o espetáculo oferecido pelas águas florescentes na década de 1960 na orla da baía de Vitória; a construção de Brasília e a mudança da capital do Rio de Janeiro para o Planalto, um dos maiores feitos da história brasileira; a implantações da Vale do Rio Doce e da Siderúrgica de Tubarão, responsáveis pela transformação da ilha de Vitória, embora muito contestadas pela poluição provocada por ambas; as mortes dos presidentes Getúlio Dornelles Vargas, Garastazu Médice e Tancredo Neves, este, eleito mas não empossado; também a decretação dos Atos Institucionais, os chamados AI, que tantos males causaram a muitos brasileiros; a abolição destes pelo presidente João Batista de Figueiredo, que proporcionou a volta do regime democrático; o crescimento desta nossa querida ilha, tomando formato de metrópole, porém perdendo sua beleza de cidade pacata; a evolução dos atletas capixabas no âmbito internacional em diversas modalidades de esportes. E foi no esporte que vi o Dr. Elísio Modenese, riobranquense de quatro costados, soltar foguetes pela conquista de um título de futebol por seu arqui-inimigo Vitória R.C. O fato deu-se no jogo de decisão do campeonato de 1957, se não me engano. Um dos times jogava pelo empate. O Rio Branco havia marcado um gol. Faltavam apenas cinco minutos para o encerramento da partida. Se terminasse o jogo com esse resultado, o título seria conferido ao Rio Branco. Tranquilamente, o Dr. Modenese, que morava em frente ao estádio, foi em casa apanhar os foguetes. Porém, ao atrasar uma bola para o goleiro, Raele, o zagueiro Zé do Monte, acabou jogando-a fora do alcance do goleiro, e a bola foi para córner. Gessy, ponta-esquerda do Vitória, cobrou alto e Manélis Sarcinelli, de cabeça, marcou o gol do campeonato para o Vitória F.C. O Dr. Modenese, que estava fora do estádio e ignorava a existência do gol "fatídico", ouvindo o barulho da torcida e pensando que se tratasse do festejo do título do Rio Branco, começou a soltar foguetes no lado de fora em frente a sua residência. Quando soube através de Pito Gianordolli, que o Vitória havia empatado o jogo nos último 30 segundos, adentrou a sua residência e sumiu. Levou diversos dias sem comparecer ao Bar do Menezes para as partidinhas de bilhar francês, procurando assim evitar as "enxovas" (o mesmo que gozação ou mico, como se diz hoje em dia).

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 – Coleção José Costa PMV, 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo             
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2019

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