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Em busca do ouro (Morro da Concha - Barra do Jucu, ES)

Charles Baffet, francês em busca do tesouro na Barra do Jucu (Morro da Concha), ES

As referências a um tesouro escondido por piratas na costa  do Espírito Santo no início do século passado aguçaram a curiosidade do francês Charles Baffet, que passou bem uns 20 anos na tentativa de encontrá-lo. Foi um tempo em que, de acordo com sua mulher, a belga Madalena, “ele viveu como um tatu”, inventando mil estratégias para achar o butim -, para ele, até hoje escondido em torno do Morro da Concha, na Barra do Jucu.

Mas a história é longa e começou quando Baffet, bacharel em Direito e formado em Ciência Política, encontrou mil referências ao tesouro da Barra do Jucu em diversas publicações reunidas na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, onde se ocupava de estudos outros. Isto foi no final dos anos 40, início dos 50. A partir de então, colecionando uma boa quantidade de material publicado na imprensa carioca e paranaense, Baffet formou um verdadeiro dossiê com muitos mapas, estudos de latitudes e longitudes – certamente, a parte mais nobre de sua bagagem, quando se mudou para Vila Velha, em 1964, como gerente de Delta Line, empresa de navegação.

Esse tesouro remonta a 1824, data da libertação do Peru, quando os espanhóis deixaram o país levando todas as riquezas possíveis (entre elas as jóias da Catedral de Lima) por dois caminhos: parte deles passou por Panamá e outra parte desceu do Peru até o rio Paraguai, atingindo o rio da Prata e, a partir dele, o Oceano Atlântico e seguindo, depois de percorrer o litoral brasileiro até a Espanha. Acontece que uma das frotas que seguiam por este caminho foi atacada por um bando de piratas na altura de Cabo Frio (RJ) e grande parte dos navios foi saqueada e afundada no mesmo local.

Em 1830, os piratas foram capturados nas Antilhas e levados para Havana, Cuba, onde foram enforcados – exceto dois, um russo e outro inglês, que conseguiram escapar. O inglês, recapturado mais tarde, foi devolvido à Inglaterra e passou anos na prisão. Depois de solto, veio com um irmão para o Paraná, onde acabou se casando e deixando, antes de morrer, anotações sobre o esconderijo do tesouro no livro que batizou de The Talbot – pesquisado em 1939 por um jornalista brasileiro que fez uma série de reportagens sobre o assunto.

O pirata russo, que usava um tapa-olho, foi encontrado 15 anos mais tarde (1845) em um hospital de Bombaim, Índia, por um capitão inglês. Antes de morrer, o velho pirata revelou a história do assalto e deu as dicas sobre o tesouro. Foi articulando e interpretando essas dicas, obtidas por caminhos diferentes, que Charles Baffet chegou à conclusão que o tesouro se encontrava no Morro da Concha ou em suas imediações, na Barra do Jucu.

 

Pistas

 

Baffet até hoje guarda de cor as principais dicas dos piratas. O russo falou do esconderijo da riqueza por meio de quatro referências geográficas: uma ilha chamada Trindade situada na costa brasileira; três marcos de pedra branca, com uma barra difícil de encontrar e quase inacessível; duas ilhas de pedra e uma colina superior, terminada em crista de galo. As referências do pirata inglês eram também meio misteriosas: “Indo do Sul para o Norte, o navegante avista ao lado do Pão de Açúcar uma depressão brusca na cordilheira de serras, onde tem um ressalto de pedra entre esse ressalto e duas outras grandes pedras há um canal difícil de ser procurado; perto da cascata, na face sul da colina (a 5,3 do Pão de Açúcar) existe uma cavidade fechada e outras três cavidades fechadas”, e a última pista eram “quatro grandes quartos no solo duro”.

Já no Espírito Santo, Baffet foi associando as coisas. Sacou que a Ilha da Trindade fica em latitude idêntica à da Barra do Jucu. Teve evidências de que a Barra do Jucu tem uma barra difícil de ser encontrada. Percebeu que a paisagem em crista de galo bem poderia ser o contorno das serras em torno do monte Mestre Álvaro, na Serra, que podem ser avistadas da Barra do Jucu. Interpretou que o Pão de Açúcar não tinha nada a ver com o morro existente no Rio (no século passado chamado pelos portugueses de “cara de cachorro”) e bem que poderia ser o Penedo. Descobriu que o Frei Leopardo, morro situado dentro da ilha de Vitória, possuía várias grutas (pequenos buracos) em sua base e que entre o frei Leopardo e a Barra do Jucu existem outras pedras significativas. Encontrou as duas ilhas de pedra – as únicas aparentes em maré alta – na Barra do Jucu. Enfim, depois de muitas investigações e passeios, adquiriu a certeza de que o butim fora enterrado no Morro da Concha ou em suas imediações.

 

A caça

 

Baffet acabou adquirindo a área do morro da Concha – ou, pelo menos, os direitos sobre ela com os herdeiros da propriedade. Além de pesquisar a topografia do local, começou a observar os movimentos da terra, o tipo de vegetação ali existente, o movimento dos ventos e das marés e, é claro, começou a cavar sozinho ou acompanhado. Acabou gastando uma boa soma nesta busca adquirindo vários detectores de minas e outros equipamentos mais modernos para perscrutar pedras e a profundeza da terra. Foi também descobrindo novas evidências de que a riqueza poderia mesmo ter sido enterrada ali.

Depois de muito cavar, encontrou um fosso formado naturalmente numa depressão da pedra. Encontrou também a um metro e vinte da superfície um cachimbo em barro esculpido a canivete formando figura da cabeça de um marinheiro, provavelmente inglês. Um dia, acompanhado de vários amigos, chegou a construir uma rampa com a areia da praia e subir o Morro da Concha com um trator – no limite da inclinação do veículo – que foi utilizado para novas escavações.

De toda a experiência reunida nesses vinte anos, chegou à conclusão de que a caça ao tesouro exige mais tempo e dinheiro do que poderia dispor. Ao se aposentar, resolveu suspender sua busca para satisfazer um desejo de sua mulher: morar em um sitiozinho longe da cidade. Foi assim que Charles Baffet se mudou, há quatro anos, para Soído de baixo, Marechal Floriano, onde planta laranjas, cria galinhas e gansos e cultiva uma quase inédita no Estado plantação de azeitonas.

Depois de escrever livros, viajar por todo o Brasil e ler bastante, resolveu no início deste ano se dedicar a outra de suas vocações, a pintura, como manda seu espírito inquieto de geminiano. E tem produzido quadros em profusão: paisagens, especialmente coma exuberância de seu ídolo Gauguin. Para ele, o tesouro da Barra do Jucu foi mais um capítulo em sua vida. Motivo para muito exercício físico e para “Manter uma aranha no teto”. Mas não desistiu de suas convicções: tem certeza de que a riqueza está lá.

 

Autora: Andréa Curry
Publicado em: A Gazeta, de 6 de agosto de 1989
Pesquisa: Acervo da Casa da Memória de Vila Velha, ES
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2012 

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