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Neste primeiro semestre de 1986

Capa do Livro - Testemunho de nosso tempo, 1986

Componente do planeta TERRA, me esforcei em mirar os detalhes que teceram a teia do seu dia-a-dia, a fim de que o registro – apesar de sucinto – pudesse fixar as transformações do todo e das partes, do meu ponto de vista, neste primeiro semestre de 1986.

1986 foi eleito o ANO INTERNACIONAL DA PAZ UNIVERSAL. É um período em que a mutação é mais nítida e em conseqüência, há muita tensão entre os povos. A humanidade se empenha na procura da Paz.

Os costumes sociais se embaralham e toma novos rumos ainda não definidos. O caminhar está mais acelerado para o fim do século e nada está em compasso de espera. Tudo se transmuda, com planejamento ou não, numa atitude de correr para chegar. Não há estagnação no comportamento, o que existe, é que muita coisa está ficando para trás, a fim de ser substituído por outra.

O Cometa de Halley tão esperado, decepciona em suas breves e longínquas aparições, sem muito brilho.

A tecnologia apresenta avanços rápidos e começa a extasiar com seus “prodígios”. O computador absorve a mente humana, a ciência apresenta resultados surpreendentes mas sempre encontra novas barreiras bem desafiantes. Algumas assertivas no campo do Retardo Mental se destacam, entretanto, muito há que se descobrir e que se dedicar neste setor lento e complexo.

A política capitalista se avulta e as consciências agem com novas avaliações. A política socialista luta sem muitos argumentos.

Em fins de Fevereiro (dia 28) o Brasil deu um passo decisivo em sua política social e econômico-financeira. O então presidente da República – José Sarney – extingue por decreto a moeda corrente – o Cruzeiro – e cria o Cruzado, na proporção de 1.000 por 1, a fim de zerar a inflação que já atinge níveis surpreendentes. O país se choca com as medidas que congela preços e ordenador, pondo fim à especulação capitalista, alimentada pela correção monetária que é extinguida e pelos juros altos que são controlados. A medida confunde a todos no primeiro momento mas recebe apoio quase absoluto e toda Nação.

A corrupção administrativa e social tomam vulto e ainda são impunes.

No campo esportivo, muito se tem feito em treinamentos e novas técnicas de vários esportes. O “foot-ball” prepara-se para a Copa do Mundo, que desta feita será disputada no México. As demonstrações técnicas e o comportamento esportivo em jogos amistosos, não têm sido positivos. No automobilismo, o Brasil tem se destacado com os pilotos Ayrton Senna e Nelson Piquet, que vão garantindo pontos para o Campeonato Mundial da Fórmula 1 em 1986.

A divulgação cultural no Estado do Espírito Santo não tem sido animadora. A impressão que se tem é que ainda não se chegou a um denominador comum. Muito se fala sobre a memória cultural sem que haja ações concretas. Lamenta-se o que o passado não deixou e pouco esforço há para se preservar o que ainda resta. A arte contemporânea está muito pobre no Estado do Espírito Santo. A criatividade arquitetônica não existe. A Literatura local tem sido preterida à de outros Estados e Países. Poucos autores conseguem ver seus livros publicados com apoio de órgãos públicos; para isto, é necessário uma penetração protegida. Há somente um jornal diário local, de vulto – A GAZETA – que no momento, fecha o espaço literário que oferecia aos colaboradores historiadores, cronistas ou poetas. A arte popular sobrevive por causa de pequenos grupos e o artesanato capixaba, apesar de ter recebido algum incentivo de órgãos públicos ainda é restrito.

A televisão desenvolve-se bastante, predominando em sua programação, novelas, filmes americanos, programas infantis, humorísticos e dedicados à mulher. Os documentários são raros e quando feitos, muito incompletos.

A mulher começa a alcançar lugar de destaque mas a concepção social que sempre limitou sua ações, continua. Em conseqüência, muitas se expõem e deixam-se manipular materialmente para alcançar um brilho muito vulgar.

Os noticiários alertam para a proliferação do AEDES AEGYPTI, um mosquito transmissor de DENGUE. Há também alguns casos de Febre Amarela. Vacinações em massa agitam os grandes centros urbanos.

A Usina Nuclear de Chernobyl, nas vizinhanças de Kiev, URSS, joga na atmosfera nuvem radioativa que se espalha pela Europa. Isto, devido a um incêndio, seguido de explosão em suas dependências. Muitas pessoas já morreram e muitas estão a espera da morte.

No Brasil, os preparativos para a Constituinte se aceleram. Um recadastramento eleitoral está sendo feito, quando o título de eleitor será mudado e as eleições serão realizadas no segundo semestre do ano.

Religiões e Seitas se multiplicam, oferecendo harmonia espiritual aos adeptos e simpatizantes. O Papa João Paulo II tem se deslocado muito do vaticano para várias regiões do Mundo, sempre pedindo paz e Fraternidade. Em Abril, visitou pela primeira vez uma Sinagoga, ressaltando em seu discurso, a necessidade de se pôr fim a discriminação ao povo Judeu.

A situação climática do Brasil tem mudado consideravelmente. A região Norte e Nordeste, anteriormente castigadas pela seca, estão inundadas por chuvas insistentes e trombas d’água, enquanto que a região centro-sul tem sofrido com secas. O verão foi um dos mais fortes dos últimos anos, não tendo chovido em Vitória – ES, pelo prazo de três meses seguidos e tido chuvas rápidas e esparsas daí em diante.

Os concursos de beleza ainda persistem e pela primeira vez, uma jovem negra representará o Brasil diante de outros povos.

Ainda na parte social, greves param vários setores comercias e industriais assim como a classe médica e até os Magistrados (que utilizaram o artifício das férias coletivas) em busca de melhores salários e quase sempre, redução da jornada de trabalho.

O Oriente continua em guerra e os atentados bélicos se espalham pela Europa.

A rápida explanação leva um pouco do que pude captar e memorizar deste TEMPO que queremos aprisionar para libertá-lo no próximo século que se aproxima.

 

Vitória, 27 de maio de 1986.

 

Livro: Testemunho de nosso tempo – 28 depoimentos sobre o mundo, o Brasil e o Espírito Santo no primeiro semestre de 1986. Coleção Cadernos de História, nº 38. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Vitória (ES), 2001
Depoimento: Léa Carvalho Ferreira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2012

 

 

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