Morro do Moreno: Desde 1535
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Uma escalada à Pedra do Oratório

Pedra do Oratório, São Torquato - Fonte: Acervo de Edward Alcântara, membro efetivo da Casa da Memória de Vila Velha, ES

À margem sul da Baía de Vitória, depois do Morro de Argolas, cinge-se a cumiada do Frade a dominar as elevações vizinhas, até o Moreno.

De escarpas rochosas, a pique, oferece uma única subida por noroeste, descampada até quase ao alto, onde o capim gordura viceja nos largos tratos invadidos pelos cerrados e capoeirões, paraíso das palmáceas espinhosas, muscíneos e pinões. Pela qualidade do terreno, delgada capa de terra sobre rochas, não parece propício ao desenvolvimento das grandes espécies vegetais. As maiores espécies são representadas pela brejaúba, judeu e cobi, escapos à preguiça dos homens, que até eles não ousaram levar os seus machados, permitindo-lhes refúgio no pequenino oásis junto ao cume.

De perfil irregular, maciço, o Frade não se apresenta propício a culturas e a não ser insignificante plantação de bananeiras, em uma de suas faldas, outra não se encontra, embora sejam notados, no pico, vestígios de antiga plantação de milho, que não logrou se aclimatar ao solo resseco e vergastado pelo vento sul.

A não ser um grupo de pedras a destacar-se na linha superior do cume, nada notável há de assinalar. Do grupo uma se destaca pelo tamanho e harmonia de forma, lembrando um leão em repouso, não faltando um belo tufo de bromeliáceas para compor-lhe a juba. Chama-se pedra do Oratório.

Por uma festiva manhã de domingo, dia de regatas, uma expedição foi subir ao Oratório do Frade. Chefiava-a o Dr. Américo Ribeiro Coelho e se compunha dos Drs. Olinto Couto de Aguirre, Afonso Schwab, Heráclito Amâncio Pereira, Américo Poli Monjardim, Augusto de Aguiar Salles, poeta e jornalista Abílio de Carvalho e do autor. Partindo de automóvel, às 9 horas, depois de atravessar a rua 1º de Março, avenida da República, Vila Rubim, ponte Florentino Avidos e estação da Leopoldina Railway chegava ao término do bom caminho. Primeiro por arrepiantes escadarias, depois por vielas escabrosas foram atingidas as primeiras elevações do morro das Argolas e após curto espaço de campo as vertentes do Frade. Ilusória impressão de suave escalada se oferecia à vista da extensa e larga rampa de capim, crestado pelo sol, sem um obstáculo sequer. A ascensão começou e tão pronto as solas dos sapatos adquiriram suficiente verniz os escorregões começaram a amiudar à proporção que progredia encosta acima. A pretexto do panorama algumas paradas foram feitas. Vencida a encosta sentaram-se todos à sombra das grandes árvores que dominam o cerrado capoeirão, onde cipós e trepadeiras formam perfeita barragem, cabendo às pequeninas palmeiras, inçadas de espinhos, o papel de armadilhas antiataques e aos insidiosos pinões os de minas subterrâneas.

Como conhecedores da pedra os Drs. Olinto e Américo Coelho foram destacados para encontrá-la, enquanto os demais recuperavam as forças. Ofereci-me para acompanhá-los e dentro em pouco estávamos perfeitamente perdidos no meio dos matos. Em marchas e contramarchas cada vez mais se desorientava o Dr. Olinto, muito embora não se quisesse dar por vencido. Por azar foi no emaranhado de gravetos e folhas secas perder o monóculo, E por mais estranho que pareça foi mais fácil achá-lo que à pedra do Oratório! Diante do impasse cada um tomou o seu rumo, Rumando para leste, indiferente aos obstáculos cheguei à clareira de antigo roçado, onde, sem possibilidade de erro, erguia-se a famosa pedra. Alertados, os companheiros não tardaram chegar, exceto o Dr. Coelho, que não encontrou a pedra e se perdeu dos amigos.

Por si só o obstáculo da pedra compensa as canseiras e se harmonizando com o que de lá se descortina é apenas surpreendente. A imponente orografia de Vitória barra a mirada para o norte com o verde luxuriante das matas e o bronzeado severo dos cabeços graníticos e, mais abaixo, extasiam-se os olhos com a filigrana burilada pelas águas no litoral caprichoso. O casario, descendo dos morros, debruça-se como donzela faceira sobre o espelho esmeraldino e num crescendo de belezas se perde para lá dos salientes que formam a barra.

Para o sul, para oeste, para leste, tudo respira grandeza, quer na vastidão marítima, na placidez das campanhas ou no espinhaço ondulante das serras.

A pedra do Oratório, propriamente dita faz parte de um grupo de cinco, sendo a maior e mais importante alongando-se de leste para oeste. Mais comprida que larga, apresenta na parte mais saliente cerca de sete metros, e cinco na maior largura, que é na base, estreitando-se à medida que se eleva em forma de cone. Ao rés-do-chão abre-se a cavidade que lhe origina o nome, Mede dois metros e oitenta, sentido vertical, e três sentido horizontal, com pouco mais de um de profundidade. Em frente, como se fora um altar, prolonga-se extensa lasca de pedra por toda a largura e, à proporção que sobre, coisa de 1,80, afina-se, deixando a impressão de uma imagem à entrada do oratório.

Não poderia ter sido mais feliz o batismo, Alguns pretendem ver na pedra o fruto do trabalho do homem: outros a colaboração do homem com a natureza. Nada autoriza qualquer das hipóteses. A natureza por seus agentes é a única responsável por tudo que ali se vê. Por improvável a ação eólica é posta à margem. Os ventos dominantes são os do sul e do norte, também os únicos capazes de uma ação eficiente sobre rochas da consistência do gnaisse. A face trabalhada situa-se, justamente a oeste, vento brando e raríssimo na região. O próprio anteparo que se estende na abertura da cavidade milita contra a hipótese. Cavidades semelhantes ostentam diversas rochas de Vitória, igualmente situadas ao abrigo dos ventos.

Hoje ninguém ignora que os mais altos picos do sistema orográfico vitoriense, como das regiões vizinhas, nada mais eram que ilhas disseminadas no grande oceano que cobria as terras antes do seu levantamento, Como os demais, o Frade participou do mesmo destino. Meio submerso, o Oratório dez parte do pequeno grupo insular que era então o morro e com ele arrostou as cóleras do mar primitivo, os embates das grandes vagas e os efeitos destruidores da abrasão, mais ou menos sensíveis, de acordo com a natureza e estrutura das rochas; perfil da costa; direção e impetuosidade das vagas; profundidade do mar e certa distância da costa. 

Todos os indícios conduzem a uma só dedução: a cumiada do Frade formava uma ilha solitária, sentinela avançada do arquipélago terciário de Vitória e como tal diretamente exposta aos rudes assaltos do mar., Resumindo, observa-se na pedra do Oratório o que se denomina de marmita. São essas marmitas formadas nas rochas mais resistentes pela presença, no interior nas mesmas, de seixos esferoides, não raro grandes, que acionados pela agitação das águas determinam o crescimento progressivo das mesmas.

Uma particularidade histórica encerra a pedra do Oratório. A tradição de um nome ilustre – o dos Torquato. Através da pequenina localidade de São Torquato conseguiu ele chegar até nós, assim mesmo vego, impreciso, sem cunho pessoal, como o de muitos outros santos, sem nada mais exprimirem que o fervor, a devoção religiosa dos seus fundadores.

O condestável Torquato, homem de boa linhagem e larga pecúnia, era senhor das terras em que se assentam Argolas e São Torquato. O padre Torquato, seu filho, ao levantar as divisórias de seus terrenos, deixou como um dos marcos as suas iniciais esculpidas no centro da cavidade do Oratório, ainda hoje bem visíveis. O “T” e o “P” formam um só corpo, O braço do “T” apresenta dois floreios nas extremidades, como duas argolas, enquanto a haste vertical repousa sobre curta barra horizontal. É na própria perna do “T”, no ângulo direito, logo abaixo do travessão, que um traço, em semicírculo, une as duas hastes formando o “P”, originalidade muito a gosto dos antigos.

 

Fonte: Vitória Física, 1995
Autor: Adelpho Monjardim - Prêmio Cidade de Vitória, 1949
1ª Edição: Revista Canaan Editora, 1950
2ª Edição: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Vitória, 1995
Prefeito Municipal de Vitória: Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo: Jorge Alencar
Diretor do Departamento de Cultura: Luiz Cláudio Gobbi
Editor Executivo: Adilson Vilaça
Produtora Executiva: Silvia Helena Selvática
Projeto Gráfico: Ivan Alves
Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringe
Foto e Capa: Léo Bicalho
Revisão: Reinaldo Santos Neves
Chefe da Biblioteca Municipal Aldelpho Poli Monjardim: Ligia Maria Melo Nagato
Bibliotecárias: Elizete Terezinha Caser Rocha e Cybelle Maria Moreira Pinheiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015



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