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A Proclamação da República e o Espírito Santo

Deodoro, ladeado por Rui Barbosa, entrega a Pátria a Constituição Republicana - Arquivo Hélio Silva

 A despeito de não ter havido a participação popular no dia 15 de novembro, a Proclamação da República não se explica pelo ato de Deodoro da Fonseca.

É que aos desgastes sofridos pelo Império no caso da Abolição da Escravidão somavam-se as chamadas Questões Religiosas e Militares, bem como a insatisfação política e o descontentamento da nova lavoura de café do oeste paulista, em supremacia econômica mas desvinculada da política tradicional.

A Questão Religiosa não levou a Igreja a aderir aos republicanos nem tampouco a Abolição tornou o escravocrata partidário do novo regime, mas teve a importância de enfraquecer os sólidos laços que até então uniam a Igreja à Monarquia, que adotara o catolicismo como religião oficial. A atitude do monarca, em 1872/74, punindo bispos e protegendo a Maçonaria dos decretos religiosos estremeceu a tradicional aliança Estado/Igreja.

Já as Questões Militares resultaram da tentativa monárquica de impedir as manifestações políticas dos militares, também sensíveis ao arcaísmo da Monarquia. Os sentimentos políticos dos militares encontraram forma e expressão na doutrina positivista, que penetrou no Exército através de homens como Benjamin Constant, entre outros. O apela feito a "um pensamento positivo liberto de preconceitos religiosos e metafísicos" combina com os setores mais ilustrados da sociedade contemporânea ao acontecido, que queriam se opor ao tradicionalismo rural.

Defendendo o advento da sociedade industrial e da "Ditadura Republicana", para expandi-la e regulá-la, o Positivismo vai colaborar na agitação republicana.

O regime monárquico, basicamente conservador, incapaz de abarcar os interesses criados numa sociedade cada vez mais complexa, não conseguiu transformar-se na federação reivindicada pelos cafeicultores. Manteve-se, portanto, como organismo excessivamente centralizado e restrito. O poder central podia intervir sistematicamente nas províncias, que não dispunham de nenhuma autonomia e pouco podiam fazer, caso não tivessem representantes políticos na cúpula imperial. Descrente da possibilidade de liberalizar a monarquia, parte da corrente federalista, que exigia poder político, torna-se republicana.

O poder republicano, cujas bases podemos localizar no Manifesto Republicano de 1870, vai congregar uma corrente bastante heterogênea e com interesses diversificados, mas com forças suficientes para transformar o descontentamento militar no golpe decisivo contra a monarquia, a 15 de novembro de 1889.

O Espírito Santo, a despeito do incremento da cafeicultura, era reputado como um dos mais atrasados do Império, e o capixaba só dispunha de dois votos no Parlamento.

A dilatação da fronteira agrícola só começara a se processar em meados do século passado, graças à convergência de fluminenses, mineiros e, principalmente, europeus, em movimento sistemático de povoamento. Até então haviam fracassado todos os esforços capixabas de ligação à economia tropical de exportação. Entretanto, a organização administrativa do Império não permitia um desenvolvimento adequado ao Espírito Santo, que, entre as principais unidades políticas do País, permanecia em grande desequilíbrio regional.

As principais fontes da contribuição pública afluíram para o orçamento geral e a província via-se obrigada a colher seus tributos nos raros títulos que já não estivessem sobrecarregados. Tudo isso gerava um quadro carencial, sobressaindo-se a deficiência da viação pública para escoamento do café, que requeria uma política econômica-administrativa descentralizada, mais adequada às nossas necessidades.

Talvez por isso o Clube Republicano, fundado dois anos antes do 15 de novembro, tenha atraído o apoio dos chefes municipais e proprietários rurais, que, posteriormente, desiludidos com a Abolição, facilitaram a formação de núcleos republicanos por todas as províncias.

Em setembro de 1888, reuniu-se, em Cachoeiro de Itapemirim, o primeiro congresso republicano da província do Espírito Santo. A 16 de novembro do ano seguinte, o escritor e historiador Afonso Cláudio assumiu o governo provisório do Estado, na República.

A Gazeta — Vitória 15 de novembro de 1984.

 

Fonte: Notícias do Espírito Santo, Livraria Editora Catedra, Rio de Janeiro - 1989
Autor: Gabriel Bittencourt
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril 2021

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