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Machado - O Cético Aparente - Por Nelson Abel de Almeida

Nelson Abel de Almeida

E «mestre» Machado de Assis, para muitos, o cético, o pessimista, o homem, que se aponta como azedo e amargurado, foi encontrar prazer e encanto em uma vida assim!...

Registra ainda, a autora de A VIDA AMOROSA DE MACHADO DE ASSIS:

"foi nesse viver metódico, monótono, que decorreram vinte e três anos daquelas duas vidas, unidas numa só vida. Não era raro que um transeunte, ao passar visse, nas tardes de sol, Machado de Assis e Carolina sentados no jardim, em duas cadeiras baixas "vis-a-vis", as mãos nas mãos, os olhos nos olhos, longe do mundo, numa palestra infinita. Um vultinho branco, felpudo, animava às vezes, a serenidade do jardim. Era a Graziela, a cadelinha querida do casal..."

Uma vida assim, calma e simples, plena e replena de amor e enlevo, uma vida assim, vivida durante quase um quarto de século, não me parece ser própria de um cético, de um pessimista, de um homem amargurado, que só via o lado pior da vida. Quero crer, e nisso estou abrigado à sombra desse crítico, e professor extraordinário, que é Afrânio Coutinho, quero crer, não foi apenas a origem humilde e modesta de Machado de Assis, a responsável pela sua atitude agressiva, frente à sociedade, frente ao homem e em face da vida.

Daí porque, acentua Afrânio Coutinho, em seu livro A FILOSOFIA DE MACHADO DE ASSIS, publicado em 1940, que

"à atitude filosófica de Machado, a sua concepção do mundo, da vida e do homem, formou-se também como resultado da meditação de grandes obras do pensamento universal, que, ao lado dos seus motivos pessoais, precedentemente estudados, lhe incutiram uma visão totalmente pessimista".

E mais adiante, acrescenta o citado autor, com referência a Machado que

"ele recebeu influencias várias como deixamos bem claro. Mas no ponto em, que nos interessa no momento, isto é, de referência à sua formação filosófica e do que se pode inferir ou de confissões claras suas ou de informações de seus críticos e amigos, ou ainda do estudo analítico e comparativo de sua obra, creio estar suficientemente seguro para afirmar que os escritores ou obras que mais lhe influenciaram no particular foram: Montaigne e Pascal, Schopenhauer, o Eclesiastes, aos quais se pode talvez acrescentar Spinoza".

E o próprio Machado de Assis, em carta que escreve a Joaquim Nabuco, não se esquece de informar:

"Desde cedo, li muito Pascal... E afirmo-lhe que não foi por distração".

Teria sido, essa confissão, feita, pelo mestre, ao grande amigo, como se fora uma justificação de sua obra mais, acentuadamente, marcada com o sinete de seu pessimismo?

Quem sabe lá? Machado não disse tudo; e no autor de Helena ainda há muito que pesquisar, e esclarecer. Para mim, e é possível que eu esteja incorrendo em erro, os estudiosos da obra imperecível de Machado de Assis só têm procurado apresentá-lo, como um cético, como um pessimista confesso, como um inimigo da vida, esquecendo-se de que Caetano Filgueiras, ao prefaciar o seu primeiro livro de poesias, afirma que o seu autor

"era vivo, era travesso, era trabalhador. Aprazia-me (continua Caetano) ler-lhe no olhar móvel e ardente a febre da imaginação na constância das produções e avidez de saber e, combinado no meu espírito estas observações com a naturalidade, o colorido e a luz de conhecimentos literários que ele derramava em todos os ensaios poéticos, que nos lia..."

Situemos, então, Machado de Assis, em seu tempo, contemporâneo de Castro Alves, de outros condores da literatura nacional, assistindo ao drama da guerra do Paraguai, vivendo a campanha da Abolição, encontrando a República que, com o seu advento, fora um impacto nas suas convicções monárquicas, e assim compreenderemos que o pessimismo e o ceticismo machadianos não são total e integralmente niilistas e destruidores, mas eram, possivelmente, o resultado de um grande ideal, de um infinito amor ao mundo e ao homem, que ele queria mais perfeitos e mais humanos.

 

Fonte: Torta Capixaba (Ensaios, Crônicas, Poesias...) 1962 - Editora Âncora S.A. Vitória - ES
Autor: Nelson Abel de Almeida
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2022

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