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E o Ururau zarpou...

Praça João Clímaco, 1910 - Fonte: UFES

Resumo: O texto abaixo narra uma história triste, banhada no horror da arbitrariedade da baioneta militar, e que abalou a então Província do Espírito Santo. Em 1827, durante a Guerra da Cisplatina, uma embarcação da Marinha brasileira atracou em Vitória para conserto do casco avariado e, sorrateiramente, sequestrou os homens que participavam da procissão de Corpus Christ nas ruas da cidadela. Um episódio marcante e pouco conhecido da História capixaba.

 

Sabe aquela expressão popular: “E ficaram a ver navio...”? Pois bem, isso de fato aconteceu, aqui, em Vitória-ES. No dia 14 de junho de 1827, os moradores da pequena cidade se reuniram no porto para dar adeus. Com lenços e lágrimas, famílias desesperadas acenaram para os homens da província que foram sequestrados dois dias antes, durante a procissão de Corpus Christ nas ruas da cidade. No navio de guerra brasileiro, denominado Ururau, pais, maridos e irmãos eram mantidos prisioneiros e levados para lutarem na Guerra da Cisplatina (182501828), na longínqua Bacia do Rio da Prata. Muitos foram, mas não se sabe quantos voltaram, ou se voltaram...

Tudo começou com uma avaria no Ururau. Essa embarcação à vela, com seis canhões a bordo, entrou em combate com um corsário argentino (o país vizinho defendia a soberania da Cisplatina, atual Uruguai) na costa Capixaba, em 29 de maio de 1827. O inimigo fugiu, mas causou danos ao brigue brasileiro que buscou refúgio na baía de Vitória dois dias depois, onde passaria por reparos. Durante o período de conserto e de abastecimento da embarcação, foi delineado um plano para, traiçoeiramente, recrutar homens para a guerra no sul do Brasil. A captura contou com a providencial ajuda do comandante das Armas do Espírito Santo, Francisco Antônio de Paula Nogueira da Gama, há três meses no cargo e ansioso em mostrar serviço.

Vitória, um povoado cristão, respeitava as festas e os dias religiosos. Os moradores, tementes a Deus, não faltavam às cerimônias litúrgicas e às procissões que percorriam as vielas da cidade. Naquele mês de junho, precisamente no dia 12, os fervorosos vitorienses sairiam na procissão de Corpus Christ. Era uma quinta-feira. As ruas estavam enfeitadas com pétalas de flores, folhagem fresca e palhas de palmeira. Formavam belos tapetes. A ornamentação também incluía arcos e bandeirolas, colchas e toalhas rendadas – estas expostas nas janelas e varandas das casas.

Cortejo Religioso

À tarde, iniciou-se a procissão. Na frente seguia a cruz, entre círios. Depois vinha a imagem de São Jorge (uma tradição lusitana), ladeada por andores. DO cortejo religioso participavam mulheres – com grinaldas cobrindo o rosto e rezando o terço que levavam entre as mãos – crianças vestidas de anjinhos, e homens com seus fraques. Autoridades seguiam eretas, acompanhadas pelo povo. Das janelas caíam pétalas de rosas, soltas ao vento por donzelas brejeiras. Tudo muito cerimonioso, provinciano. Entretanto, nos cantos das ruas e becos, ou encostados nas paredes das casas, admirados e atentos olhos forasteiros seguiam o suntuoso pálio. Eram os marujos do Ururau. Mas, não estavam sozinhos: a milícia de Nogueira da Gama também se fazia presente, disfarçando suas intenções.

Cercada pelo mar, que roçava a base dos seus morros, Vitória assistia a mais uma procissão de Corpus Christ, que percorria calmamente as ruas altas da cidade. O fervoroso préstito passava pelo Largo da Misericórdia (hoje, Praça João Clímaco, próximo a então igreja-matriz de São Thiago), Ladeira do Colégio (escadaria do Palácio Anchieta), Rua da Assembleia (atualmente, Muniz Freire) e outras vielas nas imediações da igreja. Enquanto isso, marinheiros e milicianos aguardavam ansiosos para prender e conduzir a bordo os homens de fé. E quando recolheram-se os cânticos e adornos à matriz, finalizando o cortejo, os militares agiram. Cercaram as bocas das ruas que davam para o largo, aprisionando os cristãos como gado em curral.

De repente, a correria! Gritos. Gemidos. Socos. Pontapés. Abraços comprimidos. Gravatas apertadas. Roupas rasgadas. Poeira na pele. Sangue escorrendo... Brutalidade! Desespero. Agonia. Choro. Lágrimas. Brados aos santos e deuses... Aflição! Mulheres gritavam pelos seus homens, acorrentados e presos aos grilhões, que tentavam escapar, faziam força e pediam misericórdia... Imploravam. Soluçavam. Os olhos revelavam pavor. Ardiam em cólera e medo... Pais chamavam por seus filhos, e tentavam libertá-los... Em vão! Grilhões apertavam o pranto, que escorria... Filhos pediam pelos pais, e irmãs pelos irmãos... Um cenário de tristeza e medo abriu-se sobre a pequena Vitória – seus habitantes, tão religiosos, amargavam a dor.

Defesa da pátria

Traiçoeiramente, todos foram apanhados de surpresa. Num golpe só. Alguns fugiram: rapazes desceram ladeira abaixo em desabalada carreira; uns pularam ao mar, nadando para longe, a ermo. Deixaram para trás cartolas e chapéus de palha. Já outros, incautos, fisgados pelas garras das águias, foram levados à força para o Ururau, recrutados para a defesa da pátria. Marujos, suados, compraziam-se pelo carregamento... Foi quando alguém percebeu a imagem de São Jorge jogada no chão do Largo da Misericórdia. Na correria, esqueceram do pobre santo que foi recolhido à cadeia pública e lá permaneceu por um bom tempo... O sol daquela tarde a tudo assistira, brilhante e impassível.

No cais, marinheiros e milicianos foram postados para proteger a carga humana quem, aos poucos, era levada às embarcações. Naquela época, o porto funcionava como um simples ancoradouro de madeira. No Canal de Vitória, os navios operavam ao largo devido ao volume de rochas submersas próximo ao cais. As cargas eram trazidas aos trapiches ou carregadas até as embarcações por meio de flutuantes ou pequenos barcos. Assim, em condições precárias, os homens foram arrastados até os botes e depois trancafiados no Ururau.

Caboclos, escravos e filhos de fidalgos foram aprisionados no porão. De lá, talvez, pudessem ouvir o lamento de mães, irmãs e filhos que imploravam pela liberdade deles na beira do cais. Os oficiais, insensíveis após apelos, aguardavam apenas os últimos reparos no brigue para prosseguirem viagem – o que aconteceria no sábado, dia 14. Houve, então, um clamor pelas ruas da cidadela. Mães e esposas, ajoelhadas, gritavam aos céus e aos homens pela liberdade de filhos e maridos.

“Ordens superiores”

Desesperados, os familiares buscaram ajuda no Comando das Armas. A lamúria comovia. Patético, Nogueira da Gama dizia apenas que não faria nada, pois “cumpria ordens superiores”. Os mais afortunados sugeriram então uma troca: escravos sadios pelos filhos queridos. Provavelmente, alguns conseguiram reaver seus rapazes, mandando os servos para o sacrifício da guerra. Já os miseráveis, coitados, apenas lamentaram a má sorte.

E o Ururau zarpou... No sábado, logo pela manhã, o brigue de guerra encheu suas velas e singrou o mar levando a preciosa carga de vitorienses aprisionados. Deixava no cais a dor dos parentes, e carregava no porão a saudade de homens (pais e filhos, casados e solteiros, viúvos e escravos) recrutados à força para servirem à pátria. Desembarcaram no Rio de Janeiro. De lá, seguiram para o sul, integrando-se às Armas Brasileiras nos mares de guerra. Contam que poucos voltaram às terras capixabas, aos braços dos entes queridos.

E Vitória, durante décadas, não assistiu mais à tradicional procissão de Corpus Christ, devido ao medo dos fiéis ou em memória aos que foram e nunca mais voltaram, Quanto à imagem de São Jorge, que ficou “detida” na cadeia pública, somente em 1864 voltou à matriz, em solene procissão.

Recrutamento

Tanto na Guerra Cisplatina (1825-1828) como na Guerra do Paraguai (186401870) houve recrutamento forçado de brasileiros. No início do segundo conflito, de acordo com o historiador Luiz Carlos da Silva, o brio “patriótico” levou muita gente ao combate, mas à medida que o tempo passava e a guerra mostrava-se sem solução, novos soldados foram recrutados à força. “Em muitas cidades, a população masculina simplesmente sumia das áreas urbanas e até do campo (...) para fugir ao dever com a pátria. Assim tornou-se necessário recorrer aos escravos. (...) Grandes fazendeiros podiam se alistar como voluntários e enviar grupos de escravos em seu lugar”, escreve Silva na Revista de História da Biblioteca Nacional (Ano 2, nº 18, março de 2007. Matéria: Em Guerra no Riachuelo. PP. 71 e 72).

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo - Nº 64, 2010
Autor: José Carlos Mattedi, jornalista, membro do IHGES e da Academia ES de Letras, e autor de vários livros

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