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O Nosso Pai, - extrema-unção – Por Areobaldo Lellis Horta

Igreja Matriz, atual Catedral

Além dos dogmas, a Igreja Católica possui um número determinado de sacramentos, dos quais o primeiro é o batismo e o último, a extrema-unção. Consiste essa em uma confissão, seguida de comunhão, à pessoa em artigo de morte. Visa a extrema-unção o preparo da alma, de modo a que possa deixar esta vida, lavada de pecados, quer confessando o que acha praticado aqui de mau e o tenha escondido, como católico praticante, do conhecimento do confessionário, quer pelo recebimento da hóstia eucarística, em uma fase da existência na qual não lhe interessa mais guardar em sigilo atos que, dentro da fé, só lhe poderão proporcionar males, quiçá maiores, na vida eterna.

Uma das tradições capixabas era a maneira como o sacerdote concedia dia a extrema-unção, cercando-se a dádiva deste sacramento de uma profunda e tocante expressão de religiosidade e fé, constituindo-se uma cerimônia de grande elevação espiritual, cheia de um intenso sentimento de solidariedade humana.

A tradição desapareceu logo após a Proclamação da República, ignorando-se as razões, de vez que a Vitória continuou, por muito tempo, a ser a mesma, sem quaisquer sinais de progresso.

Em que consistia a tradição do "Nosso Pai?".

Sendo Deus considerado autor único de todos os seres e de todas as coisas, nos termos em que nos ensina o velho Testamento, em seu primeiro capítulo - A Gênese —, Jesus é tido, entre muitos cristãos, como sendo Deus, malgrado dizer-se Ele, sempre filho de Deus, essa concepção, aliás, encontra seus fundamentos no dogma da Santíssima Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo -, três pessoas distintas em uma só verdadeira, que é Deus.

Quando o vigário era solicitado para ministrar o "Nosso Pai" a qualquer enfermo em artigo de morte, saía da Matriz, atual Catedral, um irmão do Santíssimo, vestindo a respectiva opa encarnada e munido de uma campa, badalando pelas ruas da cidade, convocando os fiéis para a cerimônia religiosa. De regra, à sua volta ao templo, regular já era o número de pessoas que ali se encontravam, correndo ao chamado, aguardando a saída do "Nosso Pai". Não tardava em aparecer o vigário que, vestindo sobrepeliz e estola, dirigia-se A Capela do Santíssimo, de onde saía tendo em mãos uma ânfora, no inferior da qual levava a hóstia, para a comunhão do enfermo. Precedido da irmandade e acompanhado das pessoas presentes na Matriz, em sua maioria sempre mulheres do povo, entoando cânticos sacros durante todo o trajeto, o vigário, devidamente paramentado, seguia destino à residência do paciente, tenda a seu lado o mais graduado irmão do Sacramento, cobrindo-o com uma espécie de guarda-sol, armado, próprio para tal cerimônia e conhecido entre, os católicos pela denominação de umbela.

Ao chegar o préstito à casa do doente, só o sacerdote entrava, para ministrar-lhe o "Nosso Pai", - extrema-unção -, permanecendo, à porta, todos os acompanhantes, até a volta do religioso. Organizava-se novamente o préstito, de volta à igreja, já agora aumentado de pessoas, que a ele ia se juntando, durante a sua passagem. Com o mesmo ritual da ida, o povo entoava os mesmos cânticos sacros até chegar o sacerdote ao altar, quando era cantado, para finalizar a cerimônia, o cântico "Bendito e Louvado Seja".

A cerimônia do "Nosso Pai", sobre ser tocante para quantos dela participavam, era penosa para a família do enfermo, enchendo de uma profunda tristeza o lar onde, naqueles instantes, as lágrimas dos que estavam na iminência de perder um ente querido, corriam, até a retirada do vigário.

Não se conhece a época em que teve início entre nós a solenidade do "Nosso Pai", nem qual o sacerdote que a instituiu. O fato é que se tornou uma tradição, só desaparecida após a República. De regra, a cerimônia se realizava à tardinha sendo raro fora dessa hora.

 

Fonte: A Vitória do meu tempo – Academia Espírito-Santense de Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 2007 – Vitória/ES
Autor: Areobaldo Lellis Horta
Organização e revisão: Francisco Aurelio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho/ junho/2020

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