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Lembranças de Vitória

Dois tempos num só: o trólei e o homem do final deste século

Para os capixabas, a Companhia Vale do Rio Doce tem várias caras. A primeira e mais antiga está nos trilhos e trens da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Criada em 1903, ela passou ao controle da CVRD em 1942.

Apesar de não ser, nas primeiras décadas de existência, uma ferrovia extraordinariamente eficiente, a EFVM estava intimamente ligada ao cotidiano de cidades como Vitória, Cariacica, Colatina e Baixo Guandu. Bem ou mal os trens da EFVM, aliás CVRD, eram o grande veiculo daquele tempo sem televisão.

Reformada na década de 40 e na década de 60, a ferrovia da CVRD possui hoje 900 quilômetros de linhas, 14 mil vagões e transporta 75 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, além de 20 milhões de toneladas de outras cargas e 3 milhões de passageiros/ano.

A segunda cara da CVRD, para os capixabas, foi o cais de Atalaia, que fez do habitante de Vitória a testemunha ocular do escoamento, ano a ano, vagão por vagão, do minério extraído das entranhas de Itabira, no vasto mundo de Minas Gerais. Inaugurado em 1945, o terminal de minério de Atalaia, localizado no município de Vila Velha mas de frente para Vitória, foi a primeira diversificação do porto da capital.

Com o sistema de desembarque mecânico dos vagões e a estocagem em moegas, Atalaia sepultou definitivamente a época em que as cargas de minério eram desembarcadas na rua, no centro de Vitória, c transferidas a muque para os navios. O fluxo Itabira — Atalaia foi um dos primeiros elos de uma corrente mais tarde batizada como "corredor de exportação".

Os mais antigos habitantes de Vitória sabem o que significam aquelas construções metálicas, atualmente inoperantes, na encosta oeste do morro do Atalaia. Para os jovens, porém, aquilo é um enigma. Uma lembrança deixada por uma CVRD que se mudou para outro lugar.

A terceira (e maior) cara da CVRD, para os capixabas, é o gigantesco empreendimento que se desenrola ininterruptamente desde 1963 à vista de Vitória, na Ponta de Tubarão. Há 30 anos, esse lugar era quase inacessível. Havia ali uma fazenda com pouco gado e muitos animais selvagens. Ao inaugurar em 1966 o porto de tubarão, a CVRD implantou em Vitória uma das pontas do maior negócio minerador do planeta.

A partir desse episódio, a Companhia Vale do Rio Doce cresceu tanto que o capixaba passou a não saber exatamente qual é a verdadeira cara da múltipla e gigantesca CVRD. Por isso, para muitos, a atual imagem da CVRD está disseminada em milhares de pessoas que andam pelas ruas de Vitória vestindo um uniforme café-com-leite.

 

Fonte: A Gazeta, Documento Estado, 26/10/1992
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2015

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