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O bonde que me coube

Fonte: Crônica publicada em A Gazeta, em 22/03/1992
Autor:José de Figueiredo Costa

O "Caderno Dois" está me pedindo um depoimento sumário sobre a "época dos bondes" e, assustado, me vejo peça da memória da cidade.

Os bondes começaram a rodar muito antes de meu nascimento. Os que me cabem são praticamente os dos anos 50, pouco tempo depois que vim da roça para estudar.

Paciente, tranquilo, vagaroso, submisso ao traçado dos trilhos, desambicioso, portanto, de improvisar caminhos, parecia até que o bonde é que concedia o tom, o ritmo e o limite dos sonhos. Nossa alma era ingênua; como ele, arejada e transparente. Nossos corações igualmente expostos ao acesso de quem nele pretendesse um lugar.

A pacata cidade mal abria os olhos para a perpectiva de se transformar no tumulto ruidoso que está aí. Crime, quando havia, era ao encargo de profissionais assim tão, digamos, criteriosos em sua violência específica, que seriam considerados cavalheiros de princípios perto dos celerados sanguinários de hoje, degenerados, totalmente irresponsáveis, que estupram e degolam e metralham e rasgam as vísceras de inocentes por um nada.

A corrupção, aqui entre nós, a ingênua corrupção que mereceu tanta indignação, vista com os escândalos modernos, seria como que um velocípede face a um trator, um anjo cacheado confrontado com Mike Tyson.

Ouvíamos música suave, e o luar, deitando no chão de granito das ruas sem edifícios, consolava indiscriminadamente todos os poetas, que eram muitos, porque a vida das pessoas, desatrelada de ambições excessivas, permitia aos corações guardar um canteiro para a semeadura de devaneios.

A malícia das mulheres, posta sob um véu de excitante recato, guardava um veneno sutil que a gente - coitados de nós - sorvia despreocupadamente na enganosa crença de que estávamos imunes às suas magias.

A televisão nem sonhava escravizar as pessoas como hoje. Havia, portanto, tempo de sobra para as famílias se visitarem, combinando bolinhos e genipapina. Em muitas e muitas casas, usava-se fogão de lenha, criavam-se galinhas no quintal e recebiam-se na porta, para pagamento mensal, a carne, o pão e o leite; verduras e peixe farto eram comprados dos vendedores de rua.

As pessoas se conheciam, os carros eram identificados, sabíamos quem eram os "Canos de ferro", "mariquinhas", "faroleiros", "boca de siri", "arigós", "fachadas", "mascarados", "glostorados", as moças que "davam caroço" e todos os demais titulares das gírias da época.

Hollywood ditava modelos e gerava fantasias.

Os "galhos do café eram frágeis demais para sustentar nossa economia", já se dizia, mas Tubarão, quando muito, era um projeto que ainda seria instalado perto da Praia de Piranhém. Pó, como já escrevi, nem de coca; fumaça nem de erva. Assim como não havia pontes nem safenas: éramos só coração.

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