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Porque Canela-Verde?

Trecho transcrito do Livro: Ecos de Vila Velha
Autor: José Anchieta de Setúbal
Pág.: 19 a 24


Tradicionalmente, o nome canela-verde era dado exclusivamente ao cidadão nascido na sede de Vila Velha, estendendo-se hoje para os de todo o município. O termo canela-verde tem sua origem nos portugueses que deram início à colonização do solo espírito-santense.

Constam alguns que, quando Vasco Fernandes Coutinho aqui chegou a 23 de maio de 1535 para tomar posse da capitania hereditária recebida do rei de Portugal, D. João III, batizou o lugar de Espírito Santo por aqui ter chegado num domingo de Pentecostes e iniciou as primeiras incursões pelas bandas do Morro do Moreno para então ancorar a caravela Glória na enseada da Prainha de Vila Velha. Sob repetidas salvas de tiro de canhão, a caravela Glória enfumaçou o pequeno abrigo marítimo, espantando para o fundo da mata os gentios. Com isso os primeiros passos para o desembarque haviam sido dados. A embarcação, com as suas velas arriadas, estava ancorada a ferros. Fixada ao mar, restava soltar as suas amarras e prendê-las em terra firme. Para que isso ocorresse, da tripulação, o capitão-mor Vasco Fernandes Coutinho escalou alguns homens. Essa operação era muito importante, pois proporcionaria estabilidade à embarcação, impedido-a de ficar à deriva influenciada pelas marés e pelos ventos.

A Descida

Verificada a profundidade por onde desceriam os homens na condução das amarras a terra, a tarefa foi iniciada. Os tripulantes escalados, arregaçando e puxando as calças acima dos joelhos, desceram do pequeno escaler que lhes servia de apoio e puseram mãos à obra. O trabalho lhes parecia corriqueiro a eles, tripulantes de caravelas, não fosse um pequeno e importante incidente.

Rumo à praia, um dos tripulantes, que se encontrava à frente, puxava a ponta da corda e, logo atrás, outro fazia o mesmo. Já próximos à terra, com a água abaixo dos joelhos, um deles interpelaria o outro:
- Você resolveu descer do escaler até a água com as suas polainas verdes?
- O que disse?
- Isso mesmo que você ouviu.

E repete:
- Você desceu ao mar de polainas verdes?

O outro então retruca:
- Tenho certeza de que desci até a água com os meus pés descalços. Você sim é que está a calçar suas polainas verdes, - falou o Manoel sem olhar para as suas próprias canelas.

A discussão poderia ter se prolongado por mais tempo, se nela não interferisse um terceiro tripulante, que como eles estaria ajudando a puxar a longa corda. Ele teria sido curto e grosso:
- Nem um, nem outro, seus burros, está calçando polainas verdes. Estamos sim é com as canelas envolvidas e cheias de muito limo verde.

E o primeiro, rindo, falaria:
- É, não reparei em mim, só olhei para as canelas dele. É limo mesmo, - afirmou.
- Mais parece urtiga do mar do que limo, - adiantou o segundo. – Minhas canelas estão a arder e periricar.

E os outros responderiam quase em coro:
- As minhas estão do mesmo jeito.

O Apelido


Chegados à terra, deixando a caravela devidamente atracada, os três tripulantes se desfizeram das incômodas algas, observando que nas suas pernas havia leves ferimentos com pontinhos avermelhados em torno, que por certo provocaram diminutos sangramentos, lavados pelas águas do mar que, com a sua salinidade, evidenciaram a coceira reclamada. Enquanto isso, com os pranchões de bordo voltados para terra firme, o fidalgo Vasco Fernandes Coutinho desceria para a terra com o seu séqüito. Mas antes disso, ele que acompanhara com interesse toda a caminhada dos seus primeiros homens ao mar na atracação da caravela Glória, observando todos os seus movimentos, gestos e altercações, indagaria curioso:
- E os canelas-verdes, já retornaram a bordo e aos seus postos?

Por certo muitos teriam respondido à pergunta. Dom Jorge de Menezes, outro nobre que fazia parte da comitiva e que a tudo ouvira, mostrou-se satisfeito com a tirada irônica do capitão-mor, descontraindo-se da sisudez adquirida desde a entrada da embarcação no canal rumo aos seus domínios. A descontração de Vasco Fernandes Coutinho chamando aos homens de canelas-verde lhes teria conferido certa notoriedade. Não se mostraram chateados em momento algum, já que esse batismo lhes fora dado pelo donatário da Capitania do Espírito Santo, homem a quem todos deviam obediência e respeito.

O que mais intrigaria a esses canelas-verdes, não permitindo que a névoa do tempo lhes apagasse a ocorrência das suas memórias, foram as picadas recebidas nas pernas no dia em que conduziam as amarras para atracar a caravela. Estavam certos de que as espetadelas sofridas na ocasião não provinham das inofensivas plantas marinha, semelhantes a folhas de alface. Constataram que essas espécies não eram portadoras de espinhos nem irritantes à pele. Ao contrário, eram refrescantes à epiderme e deixavam exalar um forte odor de maresia. A prainha as recebia em grande quantidade nas descidas das marés cheias, recolhendo-as o mar pelo mesmo fenômeno, nas suas subidas.

Os ferimentos das suas pernas, agora sabe-se, foram motivados pelas espetadelas involuntárias feitas pelos camarões das imensas colônias das espécies rosa e sete-barbas que naquele pedacinho de mar eram abundantes.
Quanto ao nome canela-verde adotado em 1535 pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho, há mais de quatro séculos e meio permanece imutável, embora extinta do cenário do sítio histórico de Vila Velha antiga a grande representante dessa simbologia: a alga verde-alface.

Os três primeiros canelas-verde não necessitariam de lei alguma da Câmara Municipal de Vila Velha, se ela quisesse, numa homenagem póstuma, torná-los cidadãos vila-velhenses. Seria desnecessário. Título correspondente de igual ou maior valor já lhes havia outorgado o intrépido navegador e donatário da Capitania do Espírito Santo.

E assim surgiram os três primeiros títulos da cidadania vila-velhense, isto é, de canela-verde, dados por quem tinha autoridade para fazê-lo.

Ao constituírem família, esses cidadãos incógnitos da história e os seus filhos foram os primeiros e legítimos canelas-verde, seguidos dos filhos dos aldeões, dos colonizadores e das gerações que se sucederam e se multiplicaram no correr dos séculos até os dias de hoje.

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